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A toxina botulínica e o alívio da enxaqueca

Produzido por
Dra. Simone Amorim

Neurofisiologista e Neurologista Infantil

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Por Simone Amorim,
Neurologista Infantil 

Só quem já sofreu uma crise de enxaqueca tem noção do tamanho incômodo que é esta dor. Por isso, a ideia de receber algumas injeções em pontos estratégicos, com o objetivo de aliviar o quadro crônico, tem sido cada vez mais bem recebida por aqueles que sofrem e que perdem muito da sua qualidade de vida com esse problema. É o que venho observando na clínica diária, através do trabalho com a toxina botulínica.

O termo médico correto para a enxaqueca é migrânea crônica. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) nos informam que essa patologia atinge uma em cada seis mulheres e um em cada 12 homens, em todo o mundo.

O tratamento da migrânea crônica com a toxina botulínica consiste de injeções em alguns músculos da cabeça e do pescoço. Para entender como funciona esse mecanismo de alívio é importante conhecer alguns conceitos que envolvem o mecanismo desse tipo de dor de cabeça.

De uma forma simplificada, podemos dizer que a enxaqueca acontece devido ao desencadeamento de estímulos nervosos que afetam nervos e vasos sanguíneos da cabeça (quem sofre de enxaqueca geralmente é hipersensível a determinados estímulos, sendo que fatores alimentares, hormonais e ambientais podem ser desencadeantes da crise).

Para ter o diagnóstico de enxaqueca, o paciente precisa apresentar dor de cabeça crônica por mais de 6 meses, de caráter pulsátil, uni ou bilateral (de um ou dos dois lados da cabeça), associada a náuseas e/ou vômitos, referir-se a fono ou fotofobia (hipersensibilidade ao barulho ou à luz) durante a crise – que pode incluir ou não a aura (sensações que precedem a crise de dor).

E como age a toxina botulínica como agente de alívio nesse processo?

A toxina é produzida por uma bactéria conhecida como Clostridium botulinum, sendo que essa substância é capaz de inibir contrações indesejáveis dos músculos da região onde for aplicada.

Dessa forma, o tratamento com a toxina pode atuar diretamente na região da dor, ajudando a inibir a cadeia de estímulos que leva ao aparecimento das crises de enxaqueca. Ela também age na liberação de substâncias analgésicas, como a “substância P”, e esta, por sua vez, promove o alívio dos sintomas de dor.

O tratamento com a toxina botulínica é considerado seguro, efetivo e bem tolerado em adultos. Algumas situações podem contraindicar este tratamento e devem ser investigadas pelo profissional antes da prescrição do procedimento – que jamais é feito durante uma crise de dor.

Durante e após a aplicação da toxina, o paciente sentirá algum desconforto ou dor no local da injeção, podendo haver discreto inchaço no local, nos dias subsequentes.

Resultados

Estudos mais recentes mostram que pacientes submetidos ao tratamento para a enxaqueca com a toxina botulínica relatam uma frequência menor de crises de dor e diminuição do nível das dores, nos meses subsequentes à aplicação, além da melhora no impacto das crises na qualidade de vida.

Nos dois links a seguir, constam artigos científicos, dos quais constam informações nesse sentido, com informações aprofundadas e direcionadas aos profissionais da saúde.

OnabotulinumtoxinA improves quality of life and reduces aimpact of chronic migraine http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21956721

Chronic migraine: current concepts and ongoing treatments http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed?term=chronic%20migraine%3A%20current%20concepts%20and%20ongoing%20treatments

Devido aos resultados positivos nas pesquisas e casos clínicos com a toxina botulínica no exterior, a Agência Nacional de Saúde (Anvisa) autorizou, desde junho de 2011, o tratamento da enxaqueca com esta substância aqui no Brasil.

Desde então, a busca por essa técnica sem sido grande nos consultórios de Neurologia e, na nossa observação particular, o nível de satisfação dos pacientes é bastante expressivo.

Antes, porém, de se acreditar que o tratamento com a toxina botulínica é uma panaceia que irá resolver todos os problemas de quem sofre de enxaqueca, é preciso estar atento a algumas questões:

  • A eficácia e a segurança do tratamento de enxaqueca com a toxina botulínica dependem de que ele seja ministrado por um profissional capacitado, ou seja, um Neurologista que tenha recebido treinamento adequado para isso. Só esse profissional está devidamente habilitado, pelo conhecimento que reúne, a fazer a administração da substância nos locais e nas dosagens corretos. Além disso, também cabe ao médico todos os cuidados preventivos de investigação para verificar se o paciente, de fato, tem indicação para o tratamento.
  • Em geral, as crises diminuem 15 dias depois das aplicações, sendo que o efeito pode durar até seis meses. Depois disso, é necessário reavaliar se há necessidade de novas aplicações, pois o tratamento não é uma promessa de cura para sempre.
  • As respostas ao tratamento podem variar de pessoa para pessoa, uma vez que a própria enxaqueca apresenta-se de forma diferente em cada indivíduo, variando em termos de fatores desencadeantes, frequência, intensidade da dor e sintomas correlatos. Cada paciente deve sempre ser analisado e acompanhado individualmente.
  • E, para além de tudo, como descrito no início deste post, a enxaqueca é algo que caracteriza uma hipersensibilidade do sistema de respostas do indivíduo a determinados estímulos. Isso significa que o controle das crises está diretamente relacionado ao estilo de vida que o paciente mantém e desenvolve para lidar com doença.

Assim, os fármacos e o próprio tratamento com a toxina, juntamente ao acompanhamento médico, podem ajudar muito a diminuir as crises e aumentar a qualidade vida do paciente, mas não eliminam a necessidade de uma observância atenta a fatores como: alimentação, níveis de estresse, atividades físicas e exposição a agentes desencadeantes da dor.

 

Essa publicação foi atualizada em 24 de agosto de 2019 15:38

As opiniões expressas nesse artigo são de responsabilidade de seus respectivos autores.
Caso deseje entrar em contato conosco, escreva para blogdavita@vitaclinica.com.br
Produzido por
Dra. Simone Amorim

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