Simone Amorim,
Neurofisiologista e neurologista infantil
No final de março estive em Estoril (Portugal), para acompanhar um congresso sobre doenças genéticas raras – área que concentra grande parte do meu foco de atuação clínica, juntamente com a aplicação terapêutica da toxina botulínica. O evento (foto) foi centrado na Doença de Niemann-Pick tipo C (NP-C), uma patologia que atinge um em cada 120.000 indivíduos.
Uma das situações mais preocupantes que pudemos constatar é que, em nível mundial, o tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico fica entre cinco e 10 anos, em média.
Esse é um tempo extremamente longo para dar início ao tratamento, que, quanto mais adiado é, menos chances tem de oferecer uma reabilitação adequada ao paciente. Isso sem contar as situações em que o indivíduo acaba por ter a sua sobrevida abreviada, devido à falta de assistência adequada para o seu caso.
Fica claro, portanto, que é urgente garantir a essas pessoas um atendimento precoce, que busque tanto a expansão da sua longevidade quanto a melhoria de suas condições gerais – afinal, qualidade de vida, dentro das possibilidades de cada quadro clínico, também é um direito do paciente crônico.
Porém, para que o tratamento seja instituído o mais precocemente possível, é preciso que se faça a busca ativa da doença, uma vez que muitos são os diagnósticos diferenciais e o número infindável de doenças neurológicas que se sobrepõem. Ou seja, é preciso que o profissional de Saúde desconfie da presença da patologia e saiba exatamente o que está investigando.
A grande bandeira é, então, por buscas diagnósticas mais assertivas, o que só é possível por meio da conscientização e da massificação das informações a respeito dessas doenças – que, embora sejam chamadas de “raras”, atingem um grande contingente de pessoas em todo o mundo, já que o termo “raro” refere-se apenas ao comparativo estatístico em relação às doenças consideradas clássicas.
No caso da NP-C, nota-se a necessidade de sensibilização para o encaminhamento diagnóstico até mesmo no meio médico. Amplas campanhas, em nível mundial, estão sendo feitas para chamar a atenção de profissionais de saúde para os sintomas da doença.
Essa tem sido uma mobilização de sucesso, que pode e deve abrir caminho para diversas outras, tais como a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e tantas outras, entre as mais de oito mil já classificadas pela Organização Mundial de Saúde.
A maioria dessas patologias, se não todas, não tem cura, mas já conta com tratamento sintomático, que pode impactar significativamente as condições gerais do paciente. Por isso, profissionais de saúde e familiares devem estar atentos, pois a desconfiança e a indicação para uma investigação mais atenta para um caso de difícil solução podem mudar a história de toda uma vida.
Mais informações sobre a Doença de Niemann-Pick tipo C
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