Muito comum entre pacientes com variados graus de comprometimento neurológico, a disfagia é um quadro que exige atenção e cuidados especializados. Caracterizada basicamente pela dificuldade de engolir, ela coloca em risco a segurança do paciente, além de afetar as suas condições de reabilitação, quando não são providenciadas as devidas adaptações na dieta e o acompanhamento terapêutico necessário.envelhecimento e disfagia 1 Dificuldade de engolir: um desafio nos cuidados com o paciente crônico

“Não é raro identificarmos pacientes disfágicos em estado de desnutrição, sem que a família tenha se dado conta disso”, alerta a neurofisiologista e neurologista Simone Amorim, à frente da equipe de Neurorreabilitação da clínica.

Segundo a médica, mesmo com cuidadores e familiares fazendo de tudo para adaptar a alimentação do paciente, isso exige um atento acompanhamento fonoaudiológico e nutricional, para ser feito de forma segura.

“A primeira coisa a fazer nesses casos é determinar a consistência alimentar ideal para essa pessoa. E isso é feito a partir da avaliação pelo fonoaudiólogo, que também irá traçar um plano terapêutico, a depender das condições do paciente”, explica.

A partir daí, é preciso todo um cuidado para que as restrições e adaptações não impliquem em carências nutricionais. Substituições e compensações no cardápio tornam-se essenciais e, nesse ponto, um plano nutricional personalizado faz toda a diferença.

Entretanto, além dos aportes nutricionais, um plano dessa natureza também visa não privar a pessoa do sabor da alimentação. Manter o paciente motivado a se alimentar é um processo delicado e determinante na reabilitação.

“É muito importante que esse indivíduo não perca o prazer de comer. Para isso, os sabores devem estar presentes em sua dieta, respeitando, inclusive, as suas preferências”, salienta Andrea Della Ripa, nutricionista da equipe.

Estímulos sensoriais

Joyce Fialho, fonoaudióloga que também integra o Corpo Clínico da Vita, ressalta ainda que a temperatura e as características de sabor dos alimentos, se utilizadas corretamente, são bastante benéficas para o processo terapêutico.

“A termoterapia (diferença na temperatura dos alimentos) pode ser um recurso no trabalho de estímulo à deglutição, para a sensibilidade e para aumentar a percepção dentro da boca. Os sabores também são estimulantes. O azedo, por exemplo, aumenta a salivação e leva o paciente a engolir mais vezes, podendo ser um ótimo exercício para o paciente idoso, por exemplo. Mas, claro, isso tem de ser feito sempre sob a ótica profissional, de acordo com a possibilidade de cada paciente”, explica.

Segundo as especialistas, de uma forma geral, alimentos completamente líquidos não costumam ser indicados, devido aos riscos de aspiração.

“Nesse ponto, também chamamos muito a atenção para o fato de que líquidos não são só água, sucos ou chás. Existem alimentos que se liquefazem assim que chegam na boca, como no caso da gelatina ou da melancia, por exemplo. Isso também pode ser um risco para esses pacientes”, destaca Joyce.

As consistências das refeições indicadas para os disfágicos geralmente variam de líquido-pastoso até os alimentos tipo papas ou purês, podendo ser utilizados alguns tipos de espessantes (como determinados xaropes e farinhas). Em alguns casos, os pedaços de alimentos também podem estar presentes. Tudo varia conforme a condição e/ou  evolução do paciente.28120141423 Dificuldade de engolir: um desafio nos cuidados com o paciente crônico

CONFIRA ALGUMAS DICAS PRÁTICAS ELABORADAS PELAS ESPECIALISTAS

– A partir da orientação fonoaudiológica quanto à consistência ideal da comida, é importante procurar incluir nas refeições todos os grupos alimentares (carboidratos, proteínas, gorduras boas, vitaminas e minerais);

– Liquidificar ou processar sempre todos os alimentos juntos, embora muitas vezes seja uma saída para uma refeição diversificada, pode cansar o paciente, pela falta de diferenciação de sabores. É importante buscar variar, optando também por processamentos separados, a fim de evitar a monotonia alimentar;

– É importante que o paciente continue sendo exposto a variações de tipos de sabores: doces, salgados, azedos e amargos;

– Embora a ingestão de líquidos possa ser complicada para esses pacientes, a hidratação segue sendo um fator fundamental para a saúde. Existem alternativas para que isso possa ser feito de uma maneira mais criativa: chás e sucos podem ser servidos com espessantes, por exemplo. Ou, então, as próprias frutas processadas e peneiradas podem ser usadas para deixar as preparações mais viscosas, de acordo com a consistência indicada para cada caso;

– A temperatura dos alimentos pode fazer toda a diferença, podendo ser utilizada para estímulo sensorial, conforme orientação fonoaudiológica – naturalmente, tendo sempre o cuidado de não oferecer nada que possa ser incômodo ou nocivo para os tecidos bucais;

– Antes de adotar qualquer dieta, o paciente deve passar pela avaliação fonoaudiológica, para a orientação da consistência ideal dos alimentos para o seu caso. Exercícios específicos e um plano terapêutico de reabilitação também poderão ser indicados;

– A partir daí, é importante a adoção de um plano nutricional individualizado, a fim de evitar e suprir possíveis carências decorrentes das restrições alimentares, garantindo também as variações de sabor.

SAIBA MAIS SOBRE A DISFAGIA

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  • A dificuldade de deglutição pode ocorrer por diversos fatores, sendo que até mesmo o próprio envelhecimento natural do organismo ou os longos períodos em que uma pessoa passa acamada podem ser desencadeantes dessa condição;
  • Entretanto, alguns quadros clínicos, em especial, estão mais relacionados ao surgimento dessa situação subjacente. Entre eles: alterações neuromusculares (originadas de doenças neurodegenerativas, tais como Parkinson e Alzheimer) e quadros como paralisia cerebral, AVCs e lesões cerebrais. Traumas e tumores também costumam estar relacionados ao problema;
  • Nem sempre a disfagia se manifesta como uma total incapacidade para engolir. Tosses e engasgos frequentes podem ser sintomas da presença dessa condição, que precisa ser devidamente avaliada.