O domínio da linguagem é fundamental para a vida em comunidade. Isto é, falar e compreender, assim como ler e escrever, são quesitos da maior importância para uma vida social plena. Entretanto, as dificuldades nesses campos são muito mais comuns e diversificadas do que a maioria das pessoas imagina.
O Transtorno do Desenvolvimento de Linguagem (TDL), em suas diversas formas de apresentação, atinge cerca de 7% da população geral – sendo que há estimativas de que esse universo possa ser bem maior, se incluída aí uma grande parcela das pessoas que têm Transtorno do Processamento Auditivo (TPAC) e que, por sua vez, costumam apresentar dificuldades com a linguagem oral e/ou escrita.
Segundo a fonoaudióloga Simone Sperança, mestra em Distúrbios da Comunicação Humana e doutoranda na área do Transtorno do Processamento Auditivo Central associado aos Transtornos de Linguagem, a incidência do TPAC sobre a população geral ainda não está bem definida, mas estudos apontam que seja da ordem de 5%.
“Sabemos que há uma estreita relação entre o TDL e o TPAC – pois, para sermos bons falantes, primeiro precisamos ser bons ouvintes –, mas ainda são precisos muitos estudos para podermos definir em que proporção essas situações aparecem associadas”, explica a especialista, cuja pesquisa para o doutorado passa justamente pela investigação de novas propostas terapêuticas para os transtornos de linguagem, a partir do estímulo de áreas do cérebro relacionadas à audição.
A fonoaudióloga Simone Sperança investiga a relação entre os transtornos de desenvolvimento de linguagem (TDL) e do processamento auditivo (TDAH)
Segundo Simone, o TDL é tipificado em crianças quando existe uma dificuldade persistente de aquisição da linguagem oral. “Nesses casos, a criança foi exposta a diversas oportunidades de aprendizado e, mesmo assim, se manteve com dificuldades para imitar o vocabulário, podendo apresentar também restrições no uso de expressões faciais e gestos, mas sem necessariamente apresentar déficit intelectual”, explica.
Naturalmente, ninguém espera discursos altamente articulados e vocabulário extenso em crianças e pré-adolescentes. Por isso, existem marcos do desenvolvimento que ajudam os especialistas a identificarem se o desenvolvimento está ou não dentro do padrão esperado. Caso não, existem hoje diversas abordagens terapêuticas que visam a reabilitação e o estímulo do desenvolvimento da linguagem.
Quando não recebe diagnóstico e tratamento adequados, o indivíduo com TDL muitas vezes encontra subterfúgios para “compensar” as suas limitações, à medida que as demandas sociais vão se tornando mais complexas, com o avanço da idade. Contudo, raramente isso ocorre sem prejuízos em alguma área da vida. Os relacionamentos interpessoais, a vida escolar ou a carreira profissional, por exemplo, costumam ser afetados.
Com o tempo, as dificuldades na comunicação, surgidas dos problemas de desenvolvimento da linguagem, iniciados na infância, tornam-se mais complexas
As dificuldades com a linguagem podem se manifestar de várias formas, sendo muito comuns as seguintes: dificuldade de compreensão de textos (a pessoa precisa ler várias vezes para interpretar), dificuldade de desenvolvimento de mensagens escritas (como, por exemplo: escrever um e-mail ou um post com uma ideia clara e mensagem assertiva, tendendo a apresentar também trocas de fonemas e grafemas na escrita), dificuldade para manter a atenção auditiva (dispersa-se e cansa-se facilmente em aulas, palestras, reuniões, etc.) e dificuldade de aprendizagem (escuta várias vezes a mesma explicação, mas não consegue entender/processar o que ouviu).
É comum também que a pessoa com TDL tenha dificuldade nas dissertações orais. “Muitas vezes, isso é confundido com timidez ou não gostar de conversar ou falar em público. Mas o que acontece é que a pessoa tem dificuldades para recontar histórias (isto é: ordenar começo, meio e fim de uma narrativa)”, elucida Simone. “Outra característica sintomática é a dificuldade para produzir um discurso com contornos entoacionais, tendo assim a fala monótona e sem grandes nuances de interpretação”, completa a fonoaudióloga.
Dificuldades com a linguagem podem também afetar o comportamento e se refletir nos resultados obtidos em atividades que, aparentemente, não estão diretamente relacionadas aos processos de comunicação. Sendo assim, é bom estar a alerta para situações como: a pessoa que estuda muito, não tem deficiências cognitivas e, mesmo assim, tira notas baixas; a pessoa desejar, mas não conseguir se organizar, acompanhando o ritmo de projetos escolares ou profissionais. Passar por uma avaliação fonoaudiológica pode ser a chave para destravar essas e outras áreas da vida!
A criança com problemas no desenvolvimento da linguagem pode apresentar dificuldades para se organizar e para focar nos estudos
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PARA ESTIMULAR O DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM
Essa publicação foi atualizada em 10 de março de 2022 14:11
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