Fotolia 45011165 XS Tratamento para sequelas de AVC ainda é pouco conhecidoPor Simone Amorim,
Neurofisiologista e Neurologista infantil

Na sequência da campanha de combate ao AVC, hoje quero falar de uma terapêutica que estudo e acompanho de perto: a terapêutica com toxina botulínica. Todos os pacientes que têm sequelas motoras, ou seja, todos os que ficaram com alguma alteração na movimentação após um acidente vascular cerebral podem ser ajudados por esse tratamento.

Já falamos disso aqui no blog em outras ocasiões, mas este é um assunto que não se esgota, tanto pelos resultados que traz quanto pelo fato de ser um tratamento acessível a toda a população, uma vez que é coberto pelo SUS e pelos planos de saúde – pois consta no rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde (ANS). O que é preciso, portanto, é mais conhecimento a respeito do assunto.

No caso das vítimas de AVC, um agravante é terem de lidar com a perda dos movimentos e funções que antes eram normais e com a dependência de terceiros para atividades corriqueiras do dia a dia. Esse é um quadro que costuma afetar diretamente o estado emocional e psicológico tanto do paciente quanto dos familiares que o acompanham.

Por causa de todas essas implicações: neurológicas, físicas, emocionais e psicológicas, a reabilitação é sempre uma abordagem de carácter multidisciplinar. Além do neurologista, especialistas como fonoaudiólogos, fisioterapeutas e fisiatras e, muitas vezes, psicólogos e até musicoterapeutas, por exemplo, compõem uma rede de apoio fundamental ao paciente. Nesse contexto, a terapêutica com a toxina botulínica entra ora como elemento principal e decisivo na reabilitação, ora como coadjuvante para facilitar o manejo e potencializar os resultados com o paciente.

Vou explicar brevemente como funciona: o AVC é causado pela interrupção do fluxo sanguíneo em alguma artéria cerebral, causando uma lesão nas células do cérebro, que pode ser mais ou menos grave, a depender da extensão e área do cérebro lesadas; na evolução, surge a espasticidade, uma contração exagerada dos músculos que leva à perda da função do membro afetado. É aí que a toxina botulínica age, reduzindo essa contração exagerada e permitindo, assim, mais controle sobre o membro.

Dessa forma, a toxina botulínica age como uma importante aliada dos trabalhos de Fisioterapia, por exemplo, permitindo mais manobras com menos dor. Familiares e cuidadores também são os primeiros a sentir a melhoria nas condições para lidar com o paciente. Isso sem contar o ganho de confiança e autoestima para esses indivíduos, o que se converte em motivação para seguir com os exercícios e todo o tratamento. Coisas aparentemente simples, como uma maior independência para atividades de higienização e troca das próprias roupas, são ganhos de um significado inestimável para essas pessoas.

Infelizmente, nem todos os pacientes que tiveram um AVC e seus familiares têm informação sobre essas possibilidades. Muitos ainda relacionam a toxina botulínica apenas com a estética. Acredito também que muitos médicos ainda desconhecem os benefícios desse tratamento na área da reabilitação neurológica.

Esta semana de campanha de combate ao AVC é um momento importante para falarmos sobre todos esses aspectos, que envolvem a prevenção, o socorro e a reabilitação. Esse é um assunto sério, sendo que a informação é a maior arma para o combate à doença.