A ideia de que a saúde mental e os problemas emocionais são secundários está tão cristalizada, que é difícil para as pessoas perceberem que quem CUIDA também precisa de CUIDADOS.
Nos consultórios, isso é algo visível para quem está atento à questão. Afinal, dedicar-se como cuidador principal de alguém que precisa de assistência intensiva e constante é uma tarefa especial, que exige muito, tanto de forma física, como emocional e psicológica!
Falo disso já há alguns anos, sempre que me refiro à importância do acompanhamento multidisciplinar oferecido não só aos pacientes, mas também às suas famílias. Profissionais especializados (como um psicoterapeuta) podem fazer a diferença para uma elaboração e uma adequação mais tranquilas à realidade, por esse núcleo diretamente envolvido com um paciente que enfrenta uma doença crônica.
Há algum tempo já sabemos e falamos sobre a depressão como uma relevante comorbidade presente em diversos quadros crônicos. Falo especificamente disso no post que está aqui, neste link. Mas agora, a depressão “invisível” dos cuidadores também vem se revelando em estudos científicos que acompanham famílias de doentes crônicos.
Os papéis sociais esperados da mulher contribuem para a sobrecarga enfrentada pelas cuidadoras de familiares com quadros crônicos
Em geral, a depressão do cuidador acomete mais a mulheres familiares diretas dos pacientes – o que se explica, em grande, parte pelo papel sóciocultural assumido pela figura da mãe (quando o paciente é criança), da esposa (quando se trata de um marido acamado) e da filha (no caso de pais idosos dependentes de cuidados).
Muitas vezes, essa mulher abandona a sua vida profissional para cuidar em tempo integral do ente querido ou, em outras tantas situações, divide-se em jornadas duplas ou triplas para dar conta do trabalho externo, dos afazeres domésticos e do seu papel de cuidadora. Com isso, a vida social vai se tornando mais restrita e a rede de apoio vai se escasseando, à medida que o grupo mais próximo assume que as atividades desempenhadas por aquela cuidadora fazem parte das suas “obrigações naturais”.
Cansada fisicamente, esgotada psicologicamente e enfrentando uma série de emoções contraditórias (tais como: medo pelo estado e a evolução do paciente, culpa por não poder ou não conseguir fazer mais e, não raro, cobranças e julgamentos externos), a pessoa começa a se negligenciar. Os estudos já mostram que cuidadores tendem a ter déficits em questões como: horas de sono, alimentação, prática de atividade física e horas de lazer.
Nessa altura, talvez ainda não haja um quadro depressivo instalado, mas já está reunido todo um conjunto de fatores que favorecem diretamente o aparecimento da depressão. E aí já é hora buscar ajuda!
Deixada em segundo plano, a saúde dessa cuidadora não tarda a se deteriorar e, muitas vezes, isso começa pelo comprometimento do seu bem-estar psicoemocional – e daí para a deterioração da saúde mental é um caminho curto. O empobrecimento das relações interpessoais é um indicador importante desse processo.
Enfrentar um quadro crônico de saúde é algo que traz desafios para todo o núcleo familiar do paciente afetado
Se em um primeiro momento a cuidadora abre mão da manutenção de sua vida social e, na sequência, dos seus cuidados pessoais, com o passar do tempo o seu relacionamento com o próprio núcleo familiar tende também a ficar comprometido. Os filhos saudáveis e os cônjuges, por exemplo, ressentem-se da atenção e de tempo de qualidade com essa mãe ou essa esposa – o que, para ela, só torna tudo ainda mais difícil de administrar.
Tudo isso deixa claro que há um trabalho preventivo a ser feito com essas famílias.
Quem acompanha as minhas publicações sabe que há anos levanto a bandeira da promoção da qualidade de vida do paciente crônico. Hoje, com a visão que temos no campo da Neurorreabilitação, sabemos que há muito o que se fazer por essas pessoas, e que a visão inclusiva que cobramos da sociedade deve se iniciar em casa, com esse paciente sendo integrado à vida e à rotina familiar, dentro de suas possibilidades e com respeito às suas necessidades especiais.
Essa é, portanto, uma convocação a todo o núcleo que mora e convive com o paciente – e que se estende, inclusive, à família alargada (tios, avós, primos, etc.) e, até mesmo, aos amigos próximos e até aos grupos sociais (vizinhos, grupo religioso, colegas de trabalho, etc.).
Cabe lembrar que, em geral, o paciente crônico precisa, sim, de alguém que assuma o papel de cuidador e gestor principal do seu quadro. Mas isso de maneira nenhuma significa que todos no entorno não tenham importantíssimas colaborações a oferecer! Atitudes de maior empatia e colaboração, por parte de todas as pessoas no entorno, certamente farão uma grande diferença na sobrecarga enfrentada pelo cuidador (a) principal e a este, em específico, o recado que eu quero deixar é: CUIDE-SE, pois, para cuidarmos bem de alguém, precisamos estar bem!
Essa publicação foi atualizada em 20 de setembro de 2019 15:05
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