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A depressão “invisível” dos cuidadores de pacientes crônicos

Produzido por
Dra. Simone Amorim

Neurofisiologista e Neurologista Infantil

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Todos os anos, nos engajamos na campanha Setembro Amarelo, nos canais da Clínica Vita, e eu, pessoalmente, vejo como algo muito importante o fato da sociedade estar discutindo mais a depressão – um problema de grande prevalência, que ainda hoje é cercado de abordagens equivocadas. Na minha prática clínica, por exemplo, lido com um grupo especialmente susceptível a esse quadro, mas que nem sempre encontra o suporte adequado para prevenir e tratar a situação: os cuidadores de pacientes crônicos.

A ideia de que a saúde mental e os problemas emocionais são secundários está tão cristalizada, que é difícil para as pessoas perceberem que quem CUIDA também precisa de CUIDADOS.

Nos consultórios, isso é algo visível para quem está atento à questão. Afinal, dedicar-se como cuidador principal de alguém que precisa de assistência intensiva e constante é uma tarefa especial, que exige muito, tanto de forma física, como emocional e psicológica!

Falo disso já há alguns anos, sempre que me refiro à importância do acompanhamento multidisciplinar oferecido não só aos pacientes, mas também às suas famílias. Profissionais especializados (como um psicoterapeuta) podem fazer a diferença para uma elaboração e uma adequação mais tranquilas à realidade, por esse núcleo diretamente envolvido com um paciente que enfrenta uma doença crônica.

Perfil apontado em estudos

Há algum tempo já sabemos e falamos sobre a depressão como uma relevante comorbidade presente em diversos quadros crônicos. Falo especificamente disso no post que está aqui, neste link. Mas agora, a depressão “invisível” dos cuidadores também vem se revelando em estudos científicos que acompanham famílias de doentes crônicos.

Os papéis sociais esperados da mulher contribuem para a sobrecarga enfrentada pelas cuidadoras de familiares com quadros crônicos

Em geral, a depressão do cuidador acomete mais a mulheres familiares diretas dos pacientes – o que se explica, em grande, parte pelo papel sóciocultural assumido pela figura da mãe (quando o paciente é criança), da esposa (quando se trata de um marido acamado) e da filha (no caso de pais idosos dependentes de cuidados).

Muitas vezes, essa mulher abandona a sua vida profissional para cuidar em tempo integral do ente querido ou, em outras tantas situações, divide-se em jornadas duplas ou triplas para dar conta do trabalho externo, dos afazeres domésticos e do seu papel de cuidadora. Com isso, a vida social vai se tornando mais restrita e a rede de apoio vai se escasseando, à medida que o grupo mais próximo assume que as atividades desempenhadas por aquela cuidadora fazem parte das suas “obrigações naturais”.

Cansada fisicamente, esgotada psicologicamente e enfrentando uma série de emoções contraditórias (tais como: medo pelo estado e a evolução do paciente, culpa por não poder ou não conseguir fazer mais e, não raro, cobranças e julgamentos externos), a pessoa começa a se negligenciar. Os estudos já mostram que cuidadores tendem a ter déficits em questões como: horas de sono, alimentação, prática de atividade física e horas de lazer.

Nessa altura, talvez ainda não haja um quadro depressivo instalado, mas já está reunido todo um conjunto de fatores que favorecem diretamente o aparecimento da depressão. E aí já é hora buscar ajuda!

Relações deterioradas

Deixada em segundo plano, a saúde dessa cuidadora não tarda a se deteriorar e, muitas vezes, isso começa pelo comprometimento do seu bem-estar psicoemocional – e daí para a deterioração da saúde mental é um caminho curto. O empobrecimento das relações interpessoais é um indicador importante desse processo.

Enfrentar um quadro crônico de saúde é algo que traz desafios para todo o núcleo familiar do paciente afetado

Se em um primeiro momento a cuidadora abre mão da manutenção de sua vida social e, na sequência, dos seus cuidados pessoais, com o passar do tempo o seu relacionamento com o próprio núcleo familiar tende também a ficar comprometido. Os filhos saudáveis e os cônjuges, por exemplo, ressentem-se da atenção e de tempo de qualidade com essa mãe ou essa esposa – o que, para ela, só torna tudo ainda mais difícil de administrar.

Tudo isso deixa claro que há um trabalho preventivo a ser feito com essas famílias.

Engajamento familiar

Quem acompanha as minhas publicações sabe que há anos levanto a bandeira da promoção da qualidade de vida do paciente crônico. Hoje, com a visão que temos no campo da Neurorreabilitação, sabemos que há muito o que se fazer por essas pessoas, e que a visão inclusiva que cobramos da sociedade deve se iniciar em casa, com esse paciente sendo integrado à vida e à rotina familiar, dentro de suas possibilidades e com respeito às suas necessidades especiais.

Essa é, portanto, uma convocação a todo o núcleo que mora e convive com o paciente – e que se estende, inclusive, à família alargada (tios, avós, primos, etc.) e, até mesmo, aos amigos próximos e até aos grupos sociais (vizinhos, grupo religioso, colegas de trabalho, etc.).

Cabe lembrar que, em geral, o paciente crônico precisa, sim, de alguém que assuma o papel de cuidador e gestor principal do seu quadro. Mas isso de maneira nenhuma significa que todos no entorno não tenham importantíssimas colaborações a oferecer! Atitudes de maior empatia e colaboração, por parte de todas as pessoas no entorno, certamente farão uma grande diferença na sobrecarga enfrentada pelo cuidador (a) principal e a este, em específico, o recado que eu quero deixar é: CUIDE-SE, pois, para cuidarmos bem de alguém, precisamos estar bem!

SINAIS DA DEPRESSÃO

  • Cansaço crônico (mesmo após o descanso);
  • Pessimismo / pensamentos derrotistas (diferentes dos medos objetivos relacionados à doença enfrentada pelo paciente);
  • Perturbações do sono (insônia / sonolência excessiva / pesadelos / acordar cansado (a), etc.);
  • Choro / emotividade “à flor da pele” ou sentimento de inércia (perder a capacidade de sentir);
  • Dores de cabeça e sintomas psicossomáticos (dores difusas, problemas de pele, etc.);
  • Pensamentos (ou desejos) de morte ou deixar de viver.

MEDIDAS PREVENTIVAS IMPORTANTES

  • Dividir tarefas com outros membros da família (ou equipes externas de apoio), de forma a ter tempo para dormir adequadamente, descansar e cuidar da própria saúde;
  • Aceitar ajuda de pessoas que se voluntariam para isso ou para custear serviços de apoio que possam contribuir para a assistência do paciente;
  • Buscar ajuda profissional (de um psicólogo/terapeuta familiar) para que a família possa elaborar melhor a situação, encontrando formas colaborativas de vivenciá-la;
  • Abrir espaço na agenda para momentos e períodos de lazer, não abandonando hobbies e hábitos que lhe fazem bem;
  • Cuidar das próprias emoções, não tendo receio de buscar ajuda de um psicólogo ou, até mesmo, de passar por uma avaliação médica para ver como está a sua saúde emocional. Se a depressão estiver presente, ela precisa ser tratada a sério – depressão é uma doença e pode evoluir com sérias consequências;
  • Apostar em um relacionamento saudável com os grupos e associações de ajuda, que hoje permitem tanto engajamentos presenciais, quanto virtuais. Nesses agrupamentos, muitas dicas, informações e vivências importantes são compartilhadas, dando força e norte para os cuidadores de pacientes crônicos. Mas tenha discernimento: se os conselhos se transformarem em cobranças, comparações e julgamentos, afaste-se e só cultive as relações que, de fato, contribuírem positivamente para a sua experiência.

Essa publicação foi atualizada em 20 de setembro de 2019 15:05

As opiniões expressas nesse artigo são de responsabilidade de seus respectivos autores.
Caso deseje entrar em contato conosco, escreva para blogdavita@vitaclinica.com.br
Produzido por
Dra. Simone Amorim

Neurofisiologista e Neurologista Infantil

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