Simone Amorim,
neurofisiologista e neurologista infantil
Com sorte, um “santo remedinho”, indicado por um parente, uma vizinha ou um contato em um grupo de rede social, será até capaz de garantir algumas poucas horas de alívio. Acontece que o uso regular indiscriminado dessas substâncias tende a fazer aumentar a incidência e a intensidade das crises – isso sem contar toda uma gama de efeitos colaterais que podem provocar (afinal, qualquer medicação tem efeito colateral).
A questão é que, em se tratando de uma doença crônica, com tantos fatores individuais específicos intimamente relacionados à saúde sistêmica de cada paciente, e sendo as crises passíveis de serem desencadeadas pelos mais diversos gatilhos, a medicação de alívio não é universal, assim como a medicação preventiva também não é.
Até mesmo o tratamento com toxina botulínica, que é considerado o padrão-ouro na prevenção de crises, exige uma avaliação diagnóstica atenta. Só depois disso é que a indicação terapêutica poderá ou não ser confirmada.
Em termos de medicação, num tratamento para a enxaqueca existem duas grandes categorias:
– O tratamento preventivo: que pode ser feito, por exemplo, com toxina botulínica e/ou outras medicações, e associado também a algumas medidas de mudança de hábitos e estilo de vida para o controle da frequência e intensidade das crises.
– O tratamento agudo: no qual sempre se prescreve a medicação de alívio, para o caso de dor.
Geralmente, quando nós, especialistas, escrevemos sobre enxaqueca damos muita ênfase nas explicações sobre a importância do tratamento preventivo. Afinal, sem ele, definitivamente não é possível esperar um efetivo controle do quadro.
Entretanto, são os medicamentos para o tratamento agudo, isto é, as medicações de alívio, que costumam despertar mais a atenção, o interesse e o uso indiscriminado pelo paciente. Sobre esses, então, é importante ressaltar os seguintes pontos:
SAIBA MAIS SOBRE AS MEDICAÇÕES DE ALÍVIO
As drogas específicas para o tratamento da enxaqueca, a exceção dos anti-inflamatórios não-esteroides (AINEs), não agem como analgésicos. Acredita-se que elas reduzem a dor de cabeça da enxaqueca estreitando os vasos sangüineos dilatados e revertendo as alterações químicas no cérebro que ocorrem na enxaqueca. Entre os medicamentos de alívio para a enxaqueca, as substâncias prescritas mais comuns estão, por exemplo, os triptanos e os derivados do ergort.
Todas essas substâncias, obviamente, têm benefícios referidos e comprovados na melhoria do quadro de dor e mal-estar.
Mas, como todo medicamento, existem também as contraindicações, os efeitos colateriais específicos, e a possibilidade de causarem reações adversas e interações medicamentosas indesejáveis (reação com outros remédios que a pessoa estiver tomando) quando o uso é feito de forma equivocada ou abusiva. Vejamos alguns:
Ergotamina (“Cafergot”, “Migraine” citar outros)
Trata-se de um vasoconstritor (contrai os vasos sanguíneos), geralmente prescrito para pacientes nos quais os analgésicos comuns são ineficazes.
Porém, em alguns casos, sobretudo em caso de dosagens mais altas, essa medicação pode piorar os sintomas de enjôo e vômitos, e até mesmo agravar a dor de cabeça. Muitos pacientes queixam-se também de tonturas associadas ao uso dessa medicação.
Muitas vezes, dá-se preferência pelo uso desse medicamento como inalador ou mesmo supositórios, para evitar as reações adversas. A ergotamina não deve ser tomada por quem tenha doença coronariana, hipertensão, hipertireoidismo ou disfunções renais.
Triptanos
Essas drogas se ligam a partes específicas do cérebro que respondem à serotonina. Acredita-se que elas tratam a enxaqueca pela contração seletiva dos vasos sangüíneos que incham durante um ataque – agem diferentemente da ergotamina, portanto, que contrai os vasos sangüíneos do corpo todo.
No Brasil, existem quatro triptanos disponíveis no momento: naratriptano (Naramig), rizatriptano (Maxalt), sumatriptana (Imigran) e zolmitriptano (Zomig). Os efeitos colaterais típicos dessa linha de medicamentos incluem náuseas, tontura, fadiga e sensação de peso em qualquer parte do corpo.
A tendência à recorrência da dor de cabeça também é referida nos tratamentos com essas substâncias, isto é, o ataque de enxaqueca é tratado eficientemente, mas os sintomas voltam mais tarde, no mesmo dia ou na manhã seguinte.
Além disso, algumas pessoas não devem tomar os triptanos, como os pacientes que têm doença coronariana ou ou hipertensão mal controlada. Além disso, pacientes fumantes, com histórico de AVC ou problemas cardíacos na família também devem ser muito bem avaliados pelo médico antes de tomar os triptanos.
Anti-inflamatórios não-esteróides (AINEs)
Trata-se de um grupo variado de fármacos que têm em comum a capacidade de controlar a inflamação e de analgesia (reduzir a dor).
Os AINEs são inibidores específicos da enzima ciclooxigenase (COX), desempenhando, assim, um papel eficaz como mediadores nos processos inflamatórios e mecanismos de dor, assim como em vários outros processos fisiológicos (como na coagulação e no efeito antipirético).
Entre as reações adversas referidas no uso abusivo estão o efeito rebote (isto é, aumento da frequência e da intensidade das crises de enxaqueca), além de agravamento de problemas gástricos e renais.
Essa publicação foi atualizada em 25 de agosto de 2019 08:57
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