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AVC: uma pandemia silenciosa

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Os acidentes vasculares cerebrais são hoje as principais causas de incapacidade em todo o planeta e a segunda maior causa de morte (perdendo apenas para as doenças cardíacas). “Na verdade, isso também se configura como uma pandemia, só que de forma silenciosa”, salienta o neurologista Pablo Nascimento, alertando ainda que, em meio às necessárias medidas de prevenção da Covid-19, muitos pacientes têm deixado de procurar socorro em tempo hábil nos hospitais. Além disso, aqueles que já estão em processo de reabilitação correm maiores riscos de sofrer novos eventos, se o acompanhamento não for feito de forma adequada.

Pablo Nascimento, que é especialista em Neurologia Vascular e integra o Corpo Clínico da Vita participou da live especial sobre AVC

O especialista falou sobre o tema na primeira live deste mês com integrantes do nosso Corpo Clínico , transmitida pelo Instagram da neurofisiologista e neurologista infantil Simone Amorim , diretora clínica da Vita (para assistir a live, clique aqui).

Os números apontados pelo médico ajudam a dimensionar o problema: em seis meses, desde que foi identificada pela primeira vez, a Covid-19 infectou 10 milhões de pessoas no planeta e matou cerca de 520 mil. Já o AVC acometeu 15,5 milhões de pacientes só no ano de 2018, sendo que seis milhões vieram a falecer dessa causa naquele período.

Questão emergencial X problema crônico

Naturalmente, é preciso ressaltar que nessa comparação temos: de um lado, uma doença infectocontagiosa (a Covid-19) – cuja proliferação precisa ser contida com medidas emergenciais de Saúde Pública, para que não atinja níveis exponenciais de crescimento e não colapse os serviços de atendimento e a capacidade de socorro aos doentes – e, de outro, uma doença cerebrovascular (AVC) causada em grande parte das vezes por “desgastes” ou disfunções dos próprios organismos dos pacientes (que, cada vez mais, sofrem os impactos dos chamados fatores de risco: hábitos e condições ambientais desfavoráveis à saúde sistêmica, cultivados ao longo dos anos).

O AVC é, portanto, uma questão crônica na Saúde Pública, que vem se agravando ao longo dos anos, e que pode se agravar ainda mais neste momento, em meio aos impactos da pandemia do novo coronavírus na dinâmica social e nos hábitos das pessoas. Se antes o combate aos chamados fatores de risco já implicava em uma grande batalha de conscientização e esbarrava em barreiras sócioeconômicas e culturais, hoje essa luta tem desafios acrescidos, como o isolamento social, as dificuldades para dar continuidade a algumas rotinas, além de toda uma carga de estresse e de abalos psicoemocionais que este novo cenário tende a suscitar.

Fatores de risco no cenário atual

Segundo Pablo Nascimento, existem 10 principais fatores de risco que são responsáveis por até 90% dos casos de AVC. A boa notícia é que a grande maioria deles pode ser alterada ou, pelo menos, eficazmente controlada, dentro de uma abordagem preventiva. “Isso significa que em uma enorme parcela dos casos, os AVCs poderiam ser evitados. Ou seja, com conscientização e acompanhamento adequado, podemos mudar esse cenário”, explica o neurologista.

A lista dos maiores fatores de risco tem sido amplamente divulgada há algum tempo pelos especialistas: hipertensão, sedentarismo, alimentação desregrada, colesterol elevado, obesidade, tabagismo, etilismo, falta de acompanhamento médico, diabetes e estresse.

Contudo, apesar de termos hoje uma população relativamente bem-informada, o estilo de vida moderno joga muito contra tudo isso – e agora pode jogar ainda mais!

“Neste momento é fundamental lembrarmos às pessoas de que é preciso encontrar formas de continuarem se cuidando. Mais do que nunca, precisamos nos reinventar e agir para encontrar saídas em meio a todas as contingências que estamos vivendo”, destacou Simone Amorim.

A neurofisiologista Simone Amorim chama atenção para o aumento dos casos de AVC em pacientes com menos de 60 anos de idade

A médica revelou ainda que a incidência de problemas cerebrovasculares tem aumentado entre adultos na casa dos 40 anos. “Temos visto um crescimento das ocorrências nessa faixa etária ao longo dos últimos anos, e isso está muito relacionado ao estilo de vida e aos hábitos que as pessoas têm adotado. Muita gente pensa que o AVC é algo que só acontece com o idoso, mas ele pode acontecer em qualquer etapa da vida”, explicou.

Reabilitação favorece a neuroplasticidade e diminui reincidências

Acostumados a acolher em consultório pacientes que precisam ser acompanhados após sofrerem um desses eventos, os médicos explicam que os processos de neurorreabilitação visam tanto uma boa evolução dentro das condições de cada indivíduo, quanto a prevenção de novas ocorrências. Segundo os especialistas, cerca de 30% das pessoas que sofrem um AVC tendem a reincidir, sendo que, em cada evento, além do risco de morte, novas áreas do cérebro podem ser lesionadas, implicando em mais sequelas.

“É muito importante que o paciente e seus familiares responsáveis sejam conscientizados sobre a importância de não abandonarem os tratamentos neste momento”, observou Nascimento, explicando que o acompanhamento adequado diminui os riscos de réplicas, uma vez que, nesses processos, os médicos se mantêm atentos aos fatores de risco, além do fato dos próprios processos terapêuticos serem fundamentais para a manutenção de um bom estado geral de saúde (diminuindo assim as chances de novos AVCs).

Segundo os especialistas, a neuroplasticidade é a capacidade do cérebro humano de se adaptar frente a novos desafios e/ou estímulos

Trabalhar adequadamente a neuroplasticidade é a outra grande meta com os pacientes que sofreram um acidente vascular cerebral e “dois ou três meses parados podem comprometer evoluções alcançadas ao longo de todo um ano de reabilitação”, alertou o neurologista.

Os especialistas explicaram que o cérebro humano tem a capacidade de se (re)adaptar a novas situações e, até mesmo, a limitações – como no caso de perdas funcionais causadas por morte ou lesão em áreas responsáveis por determinadas funções. “No adulto, a neuroplasticidade não é tão grande quanto na criança, mas ela também existe e não pode deixar de ser trabalhada”, salientou Simone Amorim.

De acordo com os médicos, dois fatores são muito importantes para a obtenção dos melhores resultados nesse campo: o início precoce das abordagens terapêuticas de reabilitação (preferencialmente, ainda no período de internação hospitalar, tão logo termine o tratamento da fase aguda do quadro) e a continuidade dos processos a longo prazo. “Antes, acreditava-se que o paciente tinha um período limitado de tempo para obter ganhos, mas hoje sabemos que isso pode continuar acontecendo enquanto a pessoa viver”, ressaltou Nascimento.

Os déficits neurológicos geralmente incluem fraqueza de um lado do corpo, falta de coordenação motora, falta de equilíbrio, perda da motricidade da fala, alterações na linguagem e/ou dificuldades cognitivas. Segundo o médico, eles ocorrem devido lesões que atingem determinadas áreas do cérebro durante o AVC. Sendo assim, os processos de reabilitação visam tanto a recuperação dessas zonas específicas (quando há essa possibilidade), como propiciar (por meio de estímulos terapêuticos, junto a todo o tratamento medicamentoso) que outras áreas tenham hipóteses de assumir essas funções, quando há morte de tecidos.

Prevenção, socorro rápido e assistência continuada

  1. O alerta dos especialistas passa, portanto, por três níveis. O primeiro, que serve para TODAS as pessoas é a da prevenção. Mesmo com todas as contingências do cenário atual, em meio à pandemia do novo coronavírus, precisamos encontrar meios de seguir com uma rotina de hábitos e cuidados que afastem os riscos do AVC. Com bom senso e conscientização sobre a importância disso é possível encontrar formas seguras de promover um estilo de vida mais saudável, que inclua a prática regular de atividade física, uma alimentação bem balanceada e uma boa gestão do estresse. Visitas ao médico e exames de rotina também não devem ser deixadas de lado, pois tudo isso contribuirá para manter sob controle as taxas de colesterol e açúcar, dentre outros indicadores do estado geral da saúde sistêmica.
  2. O segundo e importantíssimo nível de alerta é o do socorro rápido, em caso de sintomas de ocorrência de um AVC. “Em cada minuto perdido nesses casos mais de dois milhões de neurônios podem morrer. Ou seja, quanto mais tempo as pessoas passam sem receber o socorro adequado, além de haver maior risco de morte, há também risco de sequelas mais severas”, alerta Pablo Nascimento. Por isso, nas redes sociais, especialistas e entidades ligadas ao tema têm trabalhado a campanha #AVCNãoFiqueemCasa. Na presença de sintomas como dificuldade repentina na fala, perda de força ou controle muscular ou perda de controle dos músculos faciais, os serviços de urgência e emergência devem ser acessados o mais rapidamente possível. Dores de cabeça muito intensas, tonturas (perda de orientação espacial) e confusão mental também podem ser sintomas de AVC.
  3. O terceiro nível de cuidados salientado pelos especialistas é o da assistência continuada aos pacientes que já passaram por um desses eventos. A reabilitação NÃO pode esperar e NÃO deve ser interrompida por causa da pandemia da Covid-19. Os serviços de saúde, em sua maioria, já se adaptaram às normas de biossegurança que o exige, além de oferecerem, em muitos casos, formas alternativas de continuidade para as terapias.

Produzido por
Clínica Vita

Assessoria de Comunicação

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