Genética e ansiedade estão associadas aos tiques na infância

Simone Amorim,
neurofisiologista e neurologista infantil

Estou em San Diego, no 19th International Congress of Parkinson´s Disease and Movement Disorders, onde tenho buscado acompanhar todas as aulas voltadas para os distúrbios do movimento em crianças.

O congresso, que tem duração de cinco dias, está em ritmo de um verdadeiro curso. A  agenda é intensa e muito bem organizada, com aulas interessantíssimas e palestrantes que brilham em excelência. Tudo ocorre de forma muito dinâmica e simultânea.

Ontem, assisti a uma atualização em tiques na infância. A propósito, esse é um assunto sobre o qual eu venho querendo escrever aqui no blog já há algum tempo, pois os tiques na infância são mais comuns do que se pode imaginar (cerca de 25% das crianças e jovens apresentarão tiques transitórios em algum momento da vida).

A Síndrome de Gilles de la Tourrete é a síndrome mais conhecida e estudada entre os tiques que evoluem de forma crônica.

Com o avanço das pesquisas, e após os exames de sequenciamento de última geração (exoma e genoma), foram descobertas algumas mutações genéticas associadas aos distúrbios do movimento na infância. Mas as estatísticas mostram que a maioria dos pacientes evolui bem e sem sequelas, sendo que apenas uma pequena parcela evolui para distonias (movimentos involuntários associados a hipertonia muscular) ou mesmo esquizofrenia, entre outros quadros de maior gravidade.

Os tiques são movimentos estereotipados, repetitivos, que ocorrem em uma frequência variável, que pode ir de algumas vezes por semana a muitas vezes ao dia.

Eles podem ser apenas motores, caracterizando-se por movimentos involuntários, incontroláveis e rápidos de algum grupo muscular – por exemplo: piscamento, virar a cabeça ou o pescoço ou elevar os ombros. Podem ser também vocais, como ruído na garganta e movimentos de pigarrear. E, por vezes, os tiques também podem estar associados à ecolalia (repetir palavras) ou à coprolalia (falar palavras obscenas).

Vale frisar o caráter involuntário desses episódios. Isto é, esses são atos repetitivos que a criança manifesta, sem envolver a sua vontade ou consciência. Culpá-la e castigá-la por isso é algo que a levará ao sofrimento e sentimentos de inadequação, sem contribuir para a solução do problema.

Ao notarem a presença de tiques, os pais devem recorrer a uma avaliação profissional. O fator desencadeante mais comum dos tiques na infância é a ansiedade e, por isso, tratar essa condição é importante para ajudar no controle dessas manifestações.

Entretanto, mesmo se devendo a um gatilho emocional, é de se notar que algo está se passando no sistema nervoso desse paciente, e isso exige uma avaliação atenta pelo neurologista infantil. Na investigação diagnóstica, a realização de exames de imagem também é importante, para que sejam excluídas de imediato outras patologias.

Tudo isso aponta para a necessidade de um acompanhamento atento desses pacientes, a partir do momento em que é notada a presença de tiques. Mas não há, no entanto, a necessidade dos pais se sentirem alarmados, pois, como já foi dito, comprometimentos mais graves são minoria.

PRINCIPAIS SINTOMAS

– Um tique pode ser qualquer movimento motor que ocorre de forma frequente, súbita e rápida;

– Vocalizações ou emissão de sons – como estalar a língua, pigarrear, etc., sem controle, também podem ser considerados tiques;

– São bastante comuns nesses casos os movimentos concentrados na face – como piscar de olhos compulsivamente, franzir o nariz ou a testa, repuxar um lado da face, morder os lábios, etc.;

– Mas os tiques podem ocorrer em qualquer parte do corpo, envolvendo gestos involuntários com as mãos, braços, pernas ou pés, por exemplo, ou mesmo movimentos como o de esticar ou rotacionar o pescoço, elevar os ombros, contrair a barriga ou qualquer outro grupo muscular;

– A frequência com que a criança manifesta esses episódios (de realizar movimentos involuntários e repetitivos) pode ir de algumas vezes por semana a várias vezes ao dia;

– A manifestação dos tiques pode ser de longa duração (superior a 12 meses) ou ser transitória, com duração de, pelo menos, quatro semanas e menos de 12 meses consecutivos.

CAUSAS

– Pesquisas têm demonstrado que predisposições genéticas, que levam a alterações na transmissão de serotonina – neurotransmissor responsável pelo controle dos impulsos -, podem estar na origem dessas manifestações;

– Fatores psicoemocionais, como ansiedade e estresse, costumam ser gatilhos importantes para o surgimento dos tiques na infância;

– Alguns quadros neurológicos crônicos, doenças neurodegenerativas ou psiquiátricas também podem levar a esses sintomas, que também podem surgir como sequelas de quadros infecciosos graves.

TRATAMENTO

– O tratamento proposto poderá variar de acordo com os resultados da avaliação diagnóstica;

– O tratamento psicoterápico, com a terapia cognitiva comportamental (TCC) é, normalmente, a primeira indicação;

– Nos casos em que os tiques comprometem a vida social da criança, o tratamento medicamentoso passa a ser considerado, pois existem medicações que podem contribuir para o controle dos tiques;

– Os procedimentos cirúrgicos ou estimulação cerebral profunda (DBS) só são considerados em casos graves e vêm demostrando bons resultados.

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