Da infância à idade adulta: a incrível jornada do cérebro adolescente

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Clínica Vita

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Faz parte do senso comum a ideia de que adolescência rima com turbulência. Contudo, olhando sob outra perspectiva, as tão famosas “crises” inerentes a essa fase da vida, na verdade, sinalizam a ocorrência de um importantíssimo processo de maturação cerebral, onde há também uma incrível capacidade de aprendizado e de aquisição de habilidades.

Por outras palavras: os mesmos eventos que levam às alterações de humor, ao comportamento muitas vezes impetuoso, assim como às mudanças nos padrões de comunicação dos adolescentes, são também os que tornam os cérebros desses indivíduos muito mais permeáveis à aprendizagem, mais aptos para o ganho e aprimoramento de capacidades, além de  detentores de uma grande capacidade de retenção e fixação de informações.

“A adolescência é uma fase maravilhosa. Tudo depende de como olhamos para ela, pois essa é uma grande janela de oportunidades”, defende a neuropsicóloga e psicóloga clínica Aline Simionato, integrante do Corpo Clínico da Vita, que participou da live “Potencialidades e maturação do cérebro ao longo da adolescência” (CLIQUE AQUI para ver a live), dentro da nossa programação especial para o “Mês do Cérebro” (o Dia Mundial do Cérebro é celebrado em 22/07).

Psicóloga Aline Simionato: as mudanças a nível cerebral que estão por trás das crises adolescentes podem ser trabalhadas como trunfos para o desenvolvimento

Uma longa jornada

Do início da puberdade, até por volta dos 25 anos de idade, acontece a transição da infância para a idade adulta. Trata-se de um longo processo de amadurecimento das estruturas cerebrais e das redes neurais, no qual as áreas estimuladas e as sinapses feitas farão a diferença pelo resto da vida.

Acostumada a trabalhar com o público infantojuvenil e com jovens adultos, Aline sublinha a importância do conhecimento sobre os processos neurofisiológicos ao longo da adolescência, para que as famílias, as escolas, os serviços de saúde e a sociedade em geral possam oferecer suportes mais oportunos e assertivos a esses indivíduos. Entender e lidar com esse público implica em observar com atenção o que (literalmente) se passa em suas cabeças, e as implicações desses eventos sobre o comportamento.

Mudanças constantes e drásticas da puberdade, até por volta dos 25 anos de idade

Principais redes neurais em ação

Primeiro, é preciso entender que determinadas redes neurais poderão estar ora mais ativas, ora menos  – e isso explica, em grande medida, as diferenças nos padrões de um mesmo indivíduo visto no começo da adolescência e, depois, no meio ou ao final dessa fase. Conforme explica Aline, as redes cerebrais relacionadas às questões sócioemocionais são mais ativas no início da puberdade, enquanto a rede de controle cognitivo vai amadurecendo gradativamente, até o início da idade adulta.

“Dos 11 aos 13 anos, é mais impactante no comportamento do adolescente a amígdala – área do cérebro que opera mais a nível de reações emocionais e instintivas. Já para a metade e o final da adolescência, os lobos frontais começam a ter um papel mais importante – e é essa área que é responsável por capacidades/habilidades como planejamento, raciocínio lógico e julgamento, isto é, a parte do controle cognitivo”, detalha Aline.

Portanto, mais do que uma longa fase de mudanças, “a adolescência é então um período cheio de nuances”, conforme define a especialista. Saber que esses matizes existem, ter em mente o que ocorre em cada etapa e, ao mesmo tempo, observar atentamente o que se passa com o adolescente são medidas que aumentam as chances dos pais e educadores ajustarem de forma mais eficaz as suas abordagens.

“Processo de poda”

Ainda conforme destaca a neuropsicóloga, por volta dos 11 ou 12 anos (isto é, no começo da puberdade), há um surto na produção da substância cinzenta. Na sequência, depois do chamado estirão do crescimento, observa-se uma diminuição dessa substância (cinzenta) no córtex pré-frontal. A partir daí, a tendência é de que só permaneçam as sinapses que forem utilizadas (se elas forem). Esse é o importantíssimo “processo de poda” da adolescência, entrando em ação.

Na prática, isso significa que as conexões neurais que forem estimuladas e utilizadas com regularidade ao longo dos anos de transição da infância para a idade adulta tendem a ser mantidas como um valioso banco de dados para o resto da vida. Já as sinapses não utilizadas simplesmente serão descartadas.

“O processamento cognitivo é muito eficiente nessa etapa da vida. Além disso, as sinapses que são estimuladas vão ficando cada vez mais fortalecidas e mais regulares”, salienta a especialista, sublinhando a importância de se oferecer aos jovens estímulos e possibilidades de aprendizado capazes de ir ao encontro do potencial existente nessa fase.

Expectativas & ambiente

Ao longo da adolescência, espera-se que, progressivamente, o jovem vá ganhando maior capacidade de memória de trabalho, melhor conhecimento acumulado na memória de longo prazo, aumento na velocidade de processamento de informações, desenvolvimento maior das funções executivas (atenção seletiva, tomada de decisões, planejamento, julgamento, gerenciamento da memória de trabalho), dentre outras habilidades. Contudo, receber estímulos e contar com oportunidades de fixação de conhecimento (isto é, de se utilizar o que se aprendeu) são também fundamentais para se aproveitar todo o aparato cognitivo existente nessa fase.

“Conforme (Jean) Piaget, o adolescente está no estágio operatório formal: ele consegue ter um raciocínio hipotético dedutivo – isto é, ele elabora hipótese e consegue testar. Mas, para isso acontecer, são necessárias interações, estímulos, trocas e conhecimento. O próprio Piaget atribui então as mudanças ocorridas na adolescência ao somatório do processo (fisiológico) de maturação cerebral e das oportunidades ambientais dadas ao indivíduo”, salienta a neuropsicóloga.

Por “oportunidades ambientais”, segundo a especialista, podemos entender questões como: acesso ao conhecimento, participação do jovem em aulas e demais dinâmicas educativas, possibilidades de interações com os pares (pessoas da mesma faixa etária), prática de atividades físicas (que contribuem diretamente para o fortalecimento das redes cerebrais, além de ajudarem na gestão de questões psicoemocionais, como diminuição da ansiedade e do estresse), além de um ambiente familiar funcional e saudável do ponto de vista psicoemocional.

Pandemia e suporte especializado

São mesmo muitas variáveis em jogo, portanto! E se não bastassem todas elas, ainda surge uma pandemia a meio caminho, impondo uma vida social muito restritiva e retirando do cenário elementos essenciais, como as aulas presenciais, os esportes, os encontros com os amigos, etc. Nos consultórios, segundo Aline, as consequências têm sido sentidas, com mais dificuldades de rendimento escolar, mais situações de conflito doméstico e, até mesmo, mais casos de depressão entre os jovens.

Buscar ajuda especializada para avaliar a situação é um passo muito importante para evitar que os problemas se agravem. Muitas vezes, o profissional poderá apenas fazer o papel de mediador na comunicação entre o adolescente e os familiares, ajudando a abordar e a encontrar soluções para questões que, muitas vezes, o jovem nem sequer consegue verbalizar para a família e/ou que os pais possam estar com dificuldades de resolver sozinhos.

A Avaliação Neuropsicológica é um procedimento importante em qualquer etapa da vida, sendo muito útil também nas questões surgidas com a puberdade e adolescência

A Avaliação Neuropsicológica também é uma ferramenta que pode ser de grande auxílio nesses casos. Muitas vezes, ela é buscada pelas famílias ou indicada pela escola, mediante um desempenho escolar ruim. Mas nem sempre há um problema cognitivo presente. “A gente tem visto muitos casos em que a pessoa apenas se desorganizou emocionalmente por causa do impacto da pandemia, que implicou em questões como supressão de atividades de interesse, descontinuidade das rotinas, ambiente de maior tensão em casa, etc. A avaliação vai mapear e ajudar a visualizar o contexto e apontar a melhor forma de abordar a situação”, explica Aline.

Além das abordagens clássicas de psicoterapia, a psicóloga também destaca a possibilidade de se trabalhar com o Treino Cognitivo, em determinadas situações. São dinâmicas que visam ajudar a oferecer estímulos, por meio da proposta de atividades que visam o desenvolvimento de quesitos como memória de trabalho, organização, flexibilidade cognitiva, etc. Muitos desses estímulos tornaram-se mais escassos desde o início do cenário pandêmico, sendo importante, então, oferecer reforços nesse sentido, ajudando a pessoa a aprender a se organizar melhor, ganhando ferramentas e estruturas cerebrais que serão levadas para o resto da vida.

“A adolescência é uma fase linda, se for olhada da forma certa. Há um aumento da criatividade e maior vontade de explorar o ambiente. A gente pode desenvolver muito esse adolescente, se souber abordar tudo isso da forma certa”, garante a especialista.

Essa publicação foi atualizada em 14 de setembro de 2021 11:09

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