Consensos no tratamento da enxaqueca

Simone Amorim,
neurofisiologista e neurologista infantil

Registro de um dos workshops sobre tratamento da migranea crônica (enxaqueca) com a terapêutica da toxina botulínica.

Na última semana, entre os dias 14 e 17, participei do Congresso da Associação Mundial de Neurotoxinas (Toxins 2015), em Lisboa (Portugal). Prometi lançar aqui no nosso blog as principais novidades e atualizações sobre terapêuticas com a toxina botulínica para pacientes com patologias crônicas na área neurológica, e assim o farei nos próximos dias.

Vou começar falando de enxaqueca. Como mantemos no Facebook um grupo específico sobre o tratamento dessa patologia, fui compartilhando por lá alguns tópicos importantes, ao longo da semana, à medida que o evento se desenrolava. Seguem aqui os principais tópicos expostos nos painéis do evento:

  1. A toxina botulínica é, hoje, a medicação de escolha para a prevenção e controle da enxaqueca. Continua sendo considerada pelos especialistas de referência, em todo o mundo, como PADRÃO-OURO no tratamento de controle da enxaqueca;
  2. A indicação dessa substância, entretanto, precisa ser muito bem avaliada pelo neurologista (que tenha formação específica para essa terapêutica), pois existem diversos tipos de dor de cabeça e NÃO são todos que têm indicação para tratamento com a toxina botulínica;
  3. Depressão e ansiedade são as comorbidades mais frequentes em casos associados à enxaqueca (até porque as alterações neuroquímicas que ocorrem no cérebro e levam a esses transtornos ocorrem em áreas muito semelhantes às que desencadeiam as crises enxaquecosas). O tratamento desses quadros precisa ser feito em paralelo ao tratamento da enxaqueca;
  4. Os estudos mais recentes e atualizados na área apontam que a melhora efetiva geral do quadro enxaquecoso ocorre após o terceiro ou quarto ciclo de aplicação da toxina botulínica – embora desde a primeira aplicação os pacientes já relatem alívio na intensidade e/ou frequência das crises;
  5. Ainda não há um número máximo estabelecido de ciclos de aplicação dentro da terapêutica. Mas, com a repetição dos ciclos e as medidas de controle dos gatilhos das crises, nota-se que os intervalos entre eles podem ficar cada vezes maiores;
  6. Nota-se ainda que, quanto maior é o controle multidisciplinar desenvolvido em paralelo às aplicações, maiores são os ganhos nas condições gerais do paciente e a possibilidade de espaçamento dos ciclos de aplicações;
  7. Existe um protocolo mínimo de doses, músculos e diluição a ser seguido na aplicação. Mas isso pode variar para cada paciente, dependendo da intensidade do quadro clínico. Cabe ao neurologista optar pelo melhor protocolo para o seu paciente.
  8. A toxina botulínica faz parte de um PROGRAMA DE TRATAMENTO e, como tal, todas as demais medidas, como melhorias de qualidade de vida, atividade física, alimentação saudável e medicação adequada, quando prescritas pelo médico, deverão ser adotadas pelo paciente.

Eis aí, então, os postulados mais atualizados a respeito da terapêutica com toxina botulínica para o controle da enxaqueca. São pontos que, em minha opinião, abarcam as principais dúvidas dos pacientes a respeito do tratamento e esclarecem as questões mais cruciais que influenciam no sucesso do mesmo. Conforme tenho dito na troca de ideias no nosso grupo on-line, cada um desses tópicos rende um post à parte. E teremos oportunidade de desdobrar todos esses assuntos ao longo deste ano.

Enquanto isso, nossas plataformas de informações seguem sempre abertas às sugestões e ao recebimento de dúvidas a respeito dessas e de outras questões. A divulgação de informações atualizadas, vindas de fontes científicas sérias e transcritas de forma acessível a todos, é um compromisso meu e da Clínica Vita.

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