Enxaqueca: uma batalha diária travada em várias frentes

Simone Amorim,
neurofisiologista

Quando o assunto é enxaqueca, sempre pondero o fato de que essa é uma condição crônica e multifatorial. NÃO há cura. Mas HÁ tratamento, e este, para ser bem-sucedido, precisa ser multidisciplinar – envolvendo, inclusive, a auto-observação e a revisão de hábitos por parte do paciente.

Esse é o meu ponto de partida com todas as pessoas que atendo com essa patologia. Mesmo nos casos em que lançamos mão do tratamento com a toxina botulínica – que consensualmente é tido hoje como o “padrão-ouro” para o controle da migrânea crônica (enxaqueca)-, faço questão de que essa premissa fique bem clara.

Sabemos que, na área da Saúde, volta e meia surge algo que, diante de sua eficácia (comprovada ou aparente) e de relatos de resultados positivos, acaba por ser confundido com “a solução mágica para todos os problemas”. Temos que ter muito cuidado com essas modas!

Atualmente, tenho visto o uso de piercings na orelha sendo comemorado como a solução definitiva para as crises. Nas redes sociais, vejo muitas pessoas empolgadas, apostando suas fichas nessa alternativa, sob o pretexto de que “se não fizer bem, não há de fazer mal…”

Sei bem o quanto qualquer promessa de melhoria e alívio é valiosa! Afinal, falo sobre enxaqueca não apenas sob a ótica médica, mas também como uma paciente que já vivenciou todos os incômodos das crises e que, ao longo da vida, também já foi submetida a diversas abordagens terapêuticas.

Nos últimos anos, conforme já compartilhei aqui diversas vezes, além do tratamento com toxina botulínica, empreendi diversas adaptações no meu estilo de vida e, além do uso de medicações de alívio, também experimentei a acupuntura. Foi uma combinação com resultados excelentes.

Para mim, como médica, é óbvia a relação entre o uso dos piercings e os pontos de acupuntura, que realmente são eficazes no combate à enxaqueca. O princípio é o mesmo: uma vez corretamente estimulados, determinados pontos ativam reações positivas no organismo, favorecendo, por exemplo, a produção de endorfinas, que são neurotransmissores importantes no controle da dor.

Por outro lado, devemos lembrar que os especialistas em acupuntura estudam anos, de forma aprofundada, para saber trabalhar os pontos corretos, na intensidade e na frequência corretas, dentro do quadro clínico apresentado por cada paciente, individualmente. Nem é preciso frisar, então, a diferença entre realizar sessões com um profissional qualificado e colocar um adorno no que, supostamente, seria um ponto de pressão eficaz, não é mesmo?

A despeito de qualquer melhora que, por coincidência ou sorte, alguns pacientes tenham experimentado após colocar um piercing na orelha, vale aqui também o alerta, feito pelos especialistas no assunto, de que uma vez lesados, determinados pontos podem nunca mais se recuperar. Pessoalmente, não vejo então porque trocar o tratamento profissional por uma “solução mágica”… Não faz sentido.

Dito isso, sinto-me na obrigação de voltar a frisar que uma pessoa que sofre de enxaqueca jamais estará isenta de sua condição, mesmo diante de qualquer melhora obtida no quadro, seja com uso de remédios, com a terapêutica com toxina, com acupuntura ou mesmo com os piercings. O controle da enxaqueca é uma luta diária, travada em várias frentes e para toda a vida.

Entender e aceitar isso é o primeiro passo para um controle realmente eficaz do quadro e a perspectiva da conquista de uma nova qualidade de vida para esses pacientes.

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