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Enxaqueca na infância: esteja atento aos sintomas

Produzido por
Dra. Simone Amorim

Neurofisiologista e Neurologista Infantil

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Por Simone Amorim,
Neurologista Infantil

É preciso falar mais sobre as cefaleias na infância, aquelas dores de cabeça que muitas vezes interferem no dia dia das nossas crianças e causam tanta preocupação aos pais e responsáveis. Infelizmente, o diagnóstico muitas vezes é negligenciado, tanto por falta de informação, como também de estudos aprofundados sobre o tema em relação à população infantil.

Pouco se diz sobre cefaleias de crianças. Porém, elas também podem sofrer (e muito) com o problema. Estudos populacionais sobre cefaleias são bem raros, mas os poucos referem que a migrânea (também conhecida por enxaqueca) é a forma que mais prevalece na infância e na adolescência, seguida pela cefaleia tensional.

A migrânea (enxaqueca) é a causa de dor crônica mais comum na infância, e se caracteriza por uma dor pulsátil, de moderada a grave, de um lado da cabeça, que pode durar de algumas horas a até dois dias, e pode ser agravada com a atividade física. Geralmente está associada a vômito ou sensação de náusea, bem como hipersensibilidade a barulho, luz e cheiros.

Geralmente, quem sofre de enxaqueca aprende a conhecer os sintomas que a precedem e a tomar medidas para evitar o agravamento da crise. Em média, em 20% dos casos, a crise é precedida pela aura, que podem ser distúrbios da visão (visão de pontos luminosos e/ou pontos negros) e/ou alteração na percepção das sensações (sensação de se estar meio “fora do corpo”).

Em alguns casos, durante a crise, a pessoa também pode ser acometida por sensações de formigamento (principalmente nas mãos) e, mais raramente, déficit motor momentâneo (paralisia ou fraqueza de um dos lados do corpo) ou dificuldade da locução (afasia).

A Medicina ainda tem muito o que pesquisar para chegar a resultados conclusivos em relação às causas da enxaqueca. Porém, a “teoria neurovascular” tem sido a mais aceita, conforme os estudos mais recentes.

De acordo com esses estudos, pessoas que sofrem de enxaqueca têm o sistema neurovascular predisposto geneticamente a reagir excessivamente a determinadas estimulações internas ou externas. Em outras palavras, as pessoas que sofrem de enxaqueca são “hipersensíveis”.

Essa perturbação cerebral é responsável pelo desencadeamento de reações em cadeia, que levam a um processo inflamatório próximo aos vasos sanguíneos cerebrais.

Crises mais curtas

As crises de enxaqueca em crianças costumam ser mais curtas, com duração de cerca de meia hora, mas não menos sofridas e incômodas do que são para os adultos – principalmente porque, muitas vezes, a queixa pode ser minimizada pelos pais ou professores, sendo associada à manha, à desculpa para não realizar alguma atividade, ou mesmo para chamar atenção.

Muito importante é também ressaltar alguns fatores que podem contribuir com a manutenção ou piora das crises de migrânea, tais como:

  • Jejum prolongado
  • Privação de sono (poucas horas de sono) ou sono excessivo
  • Uso crônico e abusivo de analgésicos

Devemos chamar a atenção ainda para o fato de que as cefaleias primárias (aquelas em que não se acham as causas) são responsáveis pela imensa maioria dos casos. Porém, as secundárias (aquelas que são decorrentes de alguma alteração do sistema nervoso central) são raras. Entretanto, caso haja presença de alguns sinais de alerta, as situações abaixo sempre deverão ser investigadas:

  • Dor intensa (muito) e de início abrupto
  • Aumento na freqüência e intensidade da dor ou mudanças de padrão
  • Dor diária desde o início de sua instalação (desde o primeiro dia de ocorrência)
  • Febre, vômitos frequentes, sonolência, dor que não responde a medicação analgésica.

Manter um diário de crises atualizado e levá-lo consigo à consulta médica é sempre importante para nortear o profissional sobre os aspectos de frequência da dor, duração, intensidade, sintomas associados e uso ou não de medicação durante a crise.

Costumo dizer aos meus pacientes que este é um mapa da dor de cabeça e com ele podemos inserir muitas informações importantes que ajudarão a definir o diagnóstico preciso, o modo de investigação e o tratamento adequado para cada paciente. No caso das crianças, é importante que os pais acompanhem esse diário, conversando com a criança e fazendo as anotações necessárias.

Pais, educadores e médicos devem estar atentos aos quadros, acompanhar a frequência das queixas e observar os sintomas que acompanham a dor de cabeça nas crianças (náuseas, sensibilidade à luz, sons e cheiros; piora com o esforço físico), tanto para evitar sofrimento desnecessário como para ajudar os pequenos a lidarem com o problema, ou mesmo para iniciar o tratamento com medicação adequada, caso se faça necessário.

Erro muito freqüente entre pais e familiares é o hábito de medicar as crianças e adolescentes com medicamentos de adultos. Porém, não existem estudos que garantam a eficácia ou segurança de seu uso na faixa etária pediátrica. Então, evitem a automedicação. Ela só contribuirá para a cronicidade e piora dos sintomas. Ao perceber que seu filho se queixa com frequência de dor de cabeça, procure o pediatra ou neurologista infantil de sua confiança. Somente estes profissionais poderão orientá-lo quanto à conduta correta a ser tomada.

Essa publicação foi atualizada em 25 de agosto de 2019 09:34

As opiniões expressas nesse artigo são de responsabilidade de seus respectivos autores.
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Dra. Simone Amorim

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