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Enxaqueca: por que é preciso conhecer os gatilhos da dor

2014-08-22T00:00:00+00:00 22 de agosto de 2014|Artigos, Neurorreabilitação|0 Comments

TB 2

Simone Amorim,
neurofisiologista e neurologista infantil

Já há cinco anos trabalho com a toxina botulínica no controle da enxaqueca. Estudos demonstram que os índices de sucesso dessa terapêutica são da ordem de, pelo menos, 60% – um índice alto, se comparado com os tratamentos conservadores e em se tratando de uma patologia para a qual ainda não existe cura. Não é à toa que esse tratamento é considerado atualmente como o “padrão ouro” nesse segmento!

Entretanto, hoje quero falar de algumas situações que ainda estão fora das principais estatísticas, mas que vêm ganhando relevo cada vez maior nos protocolos de tratamento do quadro: a gestão dos chamados “gatilhos” das crises.

Diariamente no consultório vemos o paciente chegar aflito em busca de uma receita, uma fórmula, um fármaco qualquer que possa ser a solução definitiva para as suas dores, para toda a incapacitação e todos os incômodos que elas trazem no seu dia a dia.

Nas redes sociais, onde busco trocar informações com outros pacientes que sofrem da patologia (sim, também sou uma paciente!), as conversas sobre medicamentos também costumam ser o interesse número um. Existe uma grande expectativa pelo “remédio” que funcione – e isso é perfeitamente compreensível.

Mas, por outro lado, as pessoas muitas vezes ficam perdidas quando explicamos que as descobertas científicas vão num outro rumo. A reação vai da perplexidade ao inconformismo.

Existe uma grande resistência em aceitar que o caminho para controlar o quadro passa, necessariamente, por uma reprogramação de hábitos, a partir da auto-observação pelo próprio enxaquecoso – sob orientação do especialista e dentro de uma ótica multidisciplinar.

Podemos, sim, falar de tratamentos – desde o mais avançado, com alto índice de eficácia, como é o caso da terapêutica com toxina botulínica -, até o uso dos mais variados fármacos, mas qualquer abordagem exige, por parte do paciente, a resolução de se autoconhecer para gerir melhor os gatilhos da dor.

Gostaríamos muito de poder dizer que hoje existem exames de imagem ou laboratoriais capazes de detectar a enxaqueca. Não existem. Gostaríamos igualmente de poder dizer que há um procedimento ou um medicamento que, sozinho, “conserta” em definitivo o que está “errado” e causa as crises nessas pessoas, livrando-as para sempre desses incômodos. Também não há.

Mas, talvez, o que tenhamos a dizer seja até melhor que isso, por um outro lado: existem tratamentos que aliviam – e muito – a violência das crises (a terapêutica com a toxina botulínica é o nosso grande expoente nesse sentido), para que, em paralelo, o paciente possa adotar medidas que visem respeitar mais as necessidades do seu próprio organismo. Para quem opta por essa via, os efeitos colaterais esperáveis são: menos crises, menos dores e mais qualidade de vida.

Os tópicos listados abaixo visam mostrar os principais fatos conhecidos cientificamente sobre a enxaqueca, que sustentam as afirmações que faço nesse artigo sobre a importância da gestão dos gatilhos da dor. São também um convite à reflexão para todos que (como eu) sofrem desse problema:

– Sabe-se que a enxaqueca é causada por um desequilíbrio bioquímico em certas localidades do cérebro, envolvendo neurotransmissores, neuropeptídeos e hormônios. Porém, tudo isso é  muito sutil para ser detectado em exames de imagem e laboratoriais, mesmo nos mais modernos e avançados. O diagnóstico é feito, principalmente, a partir da análise clínica e do acompanhamento do quadro sintomático do paciente;

– Os indivíduos que apresentam esse desequilíbrio são especialmente vulneráveis a apresentar a dor junto com os demais sintomas da enxaqueca (náuseas, enjoos, tonturas, alterações visuais, etc.) quando expostos aos chamados gatilhos desencadeantes das crises (estímulos internos e externos para os quais essas pessoas são mais sensíveis e que variam muito de paciente para paciente);

– Os neurotransmissores e os neuropeptídeos são substâncias diretamente envolvidas em nossas sensações (inclusive a de dor) e também nas regulações de humor. É por isso que a enxaqueca também anda de mãos dadas com quadros como depressão, ansiedade e pânico, pois divide com eles o mesmo mecanismo bioquímico cerebral.

– Por sua vez, o estresse também se configura como um importante gatilho desencadeante das crises e um fator desafiante a ser administrado no dia a dia do indivíduo enxaquecoso;

– Além do estresse, outros gatilhos clássicos desencadeantes das crises são: alimentos (com destaque para os gordurosos, açucarados e industrializados, mas a sensibilidade também pode ocorrer em relação a determinados temperos, frutas e verduras, por exemplo), bebidas alcoólicas, exposição ao calor ou ao frio, aglomerações, alterações de sono (dormir pouco ou muito, ou em horários irregulares), esforço físico e sedentarismo;

– Como se vê, a lista de fatores desencadeantes pode ser bem extensa e, quanto mais fora de controle o quadro, maior tende a ser a sensibilidade do paciente.

Por tudo isso, o controle da enxaqueca hoje é encarado como uma tarefa multidisciplinar, que precisa contar com participação ativa do paciente. Uma abordagem que, particularmente, considero como um caminho bastante viável inclui:

  1. Avaliação clínica para confirmação diagnóstica e investigação para descartar a presença de outras patologias;
  2. Acompanhamento do comportamento das crises e do quadro sintomático através do Diário da Dor;
  3. Em pacientes aptos e com indicação clínica, a terapêutica com toxina botulínica, pois a aplicação da substância, em pontos específicos da cabeça, age reduzindo a liberação de neurotransmissores responsáveis pelos mecanismos de dor e a contração muscular excessiva, a fim de propiciar diminuição significativa da frequência e da intensidade das crises;
  4. Acompanhamento nutricional;
  5. Inclusão de atividade física regular bem orientada na rotina do paciente;
  6. Adoção de horário regular e satisfatório de sono;
  7. Adoção de medidas que visem o controle dos níveis de estresse – que podem passar pelo desenvolvimento de hobbies, prática de meditação, massagens de relaxamento e outros meios que ajudem a pessoa a ter benefícios em seu estado geral;
  8. Em muitos casos, a acupuntura também é referenciada como um procedimento de atuação eficaz no controle das dores crônicas e no bem-estar geral;
  9. Avaliar se, junto dessas medidas, há ainda a necessidade de uso complementar de substâncias farmacológicas específicas (existem várias opções de medicamentos, que incluem o uso de antidepressivos, anticonvulsivantes, bloqueadores adrenérgicos, além de suplementos, vitaminas e até fitoterápicos).

Note-se aqui que coloquei propositalmente o uso de medicamentos como último item da lista. Não quero dizer com isso que o uso de medicação é o último recurso a ser lançado mão, mas sim que essa medida, quando necessária, deve vir num contexto de uma série de outras abordagens que visam, em primeira instância, uma melhor convivência e resistência do paciente com os gatilhos da dor. Só assim é possível pensar, de forma realista, em um controle eficaz do quadro enxaquecoso.

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