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Era uma vez um menino – reflexões sobre a hiperatividade

Produzido por
Clínica Vita

Assessoria de Comunicação

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Por Cássia Denadai,
Psicóloga

Era uma vez um menino; ele era esguio, moreno, cabelos bem cortados. Tinha 12 anos e um olhar assustado. Veio com a mãe; estão na sala de espera. Chamo-os pelo nome do menino – afinal, estão ali por causa dele.

Nos apresentamos, o menino olha desconfiado para mim. Ouço a história que a mãe traz, enquanto o menino ouve atenta e silenciosamente.

Vou chamá-lo de Wagner neste relato. Ele chega com um diagnóstico, depois de ter passado por um médico e feito exames: é hiperativo.

Os hiperativos são uma espécie de radares que captam tudo o que está acontecendo no seu ambiente. São alegres, se movimentam com agilidade e chamam os outros para se movimentarem com eles. Muitas vezes, eles parecem aquele personagem do Ziraldo, “O Menino Maluquinho”.

Ativo e agitado, Wagner está estudando como todos os outros de sua idade e está naquela série que tem um monte de matérias,  com um monte de professores diferentes e pouco tempo com cada um deles.

Para Wagner, isso não é problema. Ou será que é? Inteligente, ele acaba suas atividades rapidamente, mas seus colegas ainda estão ocupados.

Com naturalidade, Wagner cutuca um, chama outro para conversar, joga um papelzinho em outro para brincar, anda pela sala… Diante de tanta movimentação, logo os colegas reclamam: “Professora, olha o Wagner, não me deixa fazer a lição…”

A partir daí, não demora para surgir mais um adjetivo para ele: indisciplinado! E Wagner se pergunta: “o que foi que fiz?!”

Sem entender muito bem como e por qual razão incomoda, diante das queixas de professores e de colegas quanto ao seu comportamento, o menino segue para a  avaliação médica a que fora encaminhado. Esta resultou no diagnóstico de hiperatividade e este, por sua vez, o levou até à minha sala de espera.

A mãe conta tudo e se mostra perturbada com as reclamações diárias sobre o filho. Contou também que uma medicação fora prescrita pelo médico, mas que ela e o pai estavam em dúvida se fariam ou não o uso em Wagner. Em suas palavras, o temor era de “que tudo não passasse de  sem vergonhice. Afinal, Wagner só quer saber de brincar e fazer bagunça na escola!”

Diante de tantas histórias sobre si, não era de se estranhar o olhar assustado daquele menino quando chegou ao meu consultório.

Passamos a nos encontrar semanalmente. Eu notava a sua agitação motora, que sinalizava sua inquietação emocional ou estado ansioso.

Com o passar do tempo, Wagner foi se mostrando mais tranquilo, respeitando o tempo de atendimento (os hiperativos sempre querem mais) e exercitando a atenção e a concentração, por meio das atividades lúdicas que eram propostas nas sessões.

A mudança observada no espaço terapêutico começou a se manifestar na escola também. Descobrimos até um dom artístico de Wagner: ele gostava de desenhar. Mas a habilidade não era bem vista pela família. Não lhes parecia algo “de futuro”, pelo que ouvi.

Wagner, por seu turno, estava orgulhoso de si, contando para mim a melhora de suas notas. Estava mais organizado com seus estudos e tarefas também.

Ficamos felizes com seu sucesso até que, um dia – porque, como diria Emília personagem do Sítio do Pica-pau Amarelo, em toda história existe um dia – Wagner resolveu que faria parte da lição logo que chegasse a casa e, o que faltasse, terminaria no dia seguinte.

Porém, seu pai chegou e o viu fazendo as lições fora do horário. Exigiu que parasse imediatamente, mas o menino não obedeceu. Estava empolgado com a tarefa. Resultado: apanhou do pai e recebeu uma reprimenda da mãe.

O que Wagner aprendeu com isso? Que estudar, ser responsável e planejar seu tempo não eram atitudes reforçadas positivamente pela família. A obediência era – e estava acima da responsabilidade e do compromisso com os estudos.

Tempos depois, os pais decidiram interromper o tratamento. A razão: concluíram que Wagner era um no espaço terapêutico e outro em casa.

A interação conseguida no espaço terapêutico, portanto, não foi vista pelos pais como um modelo a ser seguido, mas como concorrente  e oponente ao que entendem por educar.

Na terapia, o que Wagner tinha a dizer era considerado, os seus acertos eram reforçados positivamente e as inadequações de comportamento eram apontadas com diálogo. Na conversa, falávamos das consequências e possíveis desdobramentos dessas inadequações, e assim por diante.

Não é de se espantar que o menino fosse um no consultório e outro em casa!

O que mudava, porém, não era o Wagner, mas as atitudes dos adultos em relação a ele.

As atitudes do adulto diante dos assuntos escolares não só têm interferência no desenvolvimento da aprendizagem como também podem trazer repercussões em outras áreas da vida. Bom senso e respeito estão sempre em alta no se refere à Educação e ao relacionamento interpessoal.

 

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Clínica Vita

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