O que sabemos sobre os riscos do Zika vírus durante a gestação

Aula sobre infecção congênita do Zika vírus, ministrada pela neuropediatra Vanessa Van der Linden, no Congresso Brasileiro de Neurologia Infantil, em Foz do Iguaçu.

Simone Amorim,
neurologista infantil e neurofisiologista

A aula sobre infecção congênita do Zika vírus foi um dos pontos altos do XI Congresso Brasileiro de Neurologia Infantil, em Foz do Iguaçu (PR), no último mês.

Os olhos do mundo estão voltados para o que acontece no Brasil nesse campo e nós, profissionais da área, que vamos lidar com essas crianças em nossos consultórios nos próximos anos e décadas, temos o dever de nos manter atentos e muito bem informados sobre o tema.

Ministrada de forma brilhante pela neurologista infantil Dra. Vanessa Van der Linden, a palestra reiterou, para especialistas de todo o país, os principais achados clínicos nas crianças afetadas pelo vírus.

Na ocasião do Congresso Mundial de Neurologia Infantil, que acompanhei em Amsterdã, na Holanda, onde a especialista também ministrou uma aula sobre o tema, cheguei a fazer um post breve sobre o assunto na minha página no Facebook. Mas acho importante voltar ao tema aqui no blog, fazendo um registro dos pontos consensuais mais importantes para a comunidade médica, neste momento.

A infecção da gestante pelo Zika vírus pode ser leve, com discreta vermelhidão na pele e febre baixa, ou até mesmo passar despercebida, em qualquer fase da gravidez. Mas é no feto, no primeiro trimestre da gestação, que o vírus causa os maiores danos ao sistema nervoso central (cérebro) e periférico. Vamos falar deles:

– As lesões no cérebro são malformativas, com graves distúrbios de migração e, até mesmo, não desenvolvimento do tecido cerebral;

– Por outro lado, alguns bebês infectados na mesma época gestacional podem apresentar um quadro mais leve. Ainda não sabemos que mecanismos “protegem” uns bebês e não outros, para que sejam menos afetados;

– De forma geral, a lesão neurológica é grave e a maioria dos bebês infectados nasce com microcefalia, podendo vir a desenvolver hidrocefalia ao longo dos meses;

– A desproporção craniofacial dessas crianças chama bastante atenção, revelando que desde muito cedo não houve estímulo para o crescimento do cérebro;

– Outras malformações também podem ocorrer, como a artrogripose (deformidades nas articulações e nas extremidades de pés e mãos);

– A extensa lesão cerebral faz com que esses bebês evoluam com grave espasticidade (contração exagerada dos músculos), epilepsia, distúrbios visuais, auditivos e da deglutição. A epilepsia, nesses casos, pode ser de difícil controle.

Atualmente tem sido dada atenção também aos bebês infectados pelo Zika vírus, mas que nasceram com perímetro cefálico normal (tamanho da cabeça) e apresentaram alterações neurológicas mais leves. A evolução e o acompanhamento desses bebês nos ajudará a atender a forma como o vírus agride o sistema nervoso central e periférico dessas crianças.

Os bebês infectados com o Zika vírus se enquadram no conceito de uma paralisia cerebral, onde houve uma agressão ao cérebro, com sequelas neurológicas permanentes e que necessitarão de uma abordagem de tratamento multidisciplinar, visando sua pronta reabilitação, respeitando suas limitações e potencialidades.

Disqus Comments Loading...
Compartilhe

Recentes

Autismo: desmistificar é o primeiro passo para a verdadeira inclusão

Abril é um mês dedicado ao Transtorno do Espectro Autista (TEA). No último dia 02, tivemos o Dia Mundial de…

2 semanas atrás

Dieta cetogênica é recomendada no controle da epilepsia

Há importantes novidades no tratamento dos pacientes epilépticos. A Liga Brasileira de Epilepsia, em seu mais novo protocolo, incorporou a…

1 mês atrás

Down é a síndrome genética de maior incidência

A Síndrome de Down é uma síndrome genética decorrente da presença de um cromossomo a mais, no par 21 - por isso,…

1 mês atrás

Superexposição de crianças ao mundo digital preocupa especialistas

A superexposição desde cedo das crianças às telas eletrônicas vem preocupando profissionais de saúde em todo o mundo. Na opinião da…

1 mês atrás

Médica receita sucos especiais para “varrer” radicais livres do organismo

Você sabe o que significa destoxificar? Quem explica é a especialista em Clínica Geral com Prática Ortomolecular, Renata Tirol, integrante…

2 meses atrás

Cinco fatores que fazem toda a diferença para a sua saúde

Alguns hábitos simples já são consenso universal entre especialistas em Saúde como medidas comprovadamente eficazes para prevenir doenças e promover melhores condições para um estado…

2 meses atrás