Padrão ouro no tratamento da enxaqueca

Simone Amorim,
Neurofisiologista e neurologista infantil

Existe um medicamento considerado “padrão ouro” no tratamento da migrânea crônica, também conhecida como enxaqueca. Trata-se da toxina botulínica. A terapêutica costuma ser considerada um divisor de águas entre aqueles pacientes que passam pelo procedimento e, neste momento em que a utilização da substância para essa finalidade ganha cada vez mais destaque, é importante estarmos atentos aos protocolos relativos à sua utilização.

DIAGNÓSTICO

O primeiro ponto a observar em relação à indicação da toxina botulínica para o tratamento da dor de cabeça é a realização de um diagnóstico seguro para a presença da migrânea crônica. Isto é, antes da prescrição do tratamento, o paciente precisa passar por uma investigação diagnóstica, feita por um neurologista, a fim de descartar outros quadros clínicos.

A enxaqueca apresenta características e critérios que a definem bem, tais como: mais de seis meses de ocorrência de episódios de dor; dor do tipo pulsátil ou latejante, geralmente unilateral; frequência maior que duas vezes na semana, geralmente acompanhada por fonofobia  (incômodo pelo barulho), fotofobia (incômodo pela luz) e náuseas ou vômitos.

Na migrânea, a duração do episódio de dor é superior a 4h e, no caso do status migranoso, pode chegar a 72h de duração. Alguns fatores podem desencadear a crise, como jejum, estresse, ansiedade, e alguns alimentos.

Mas, conforme eu já tive oportunidade de apontar em outros posts aqui no nosso Blog, existem também subtipos de enxaqueca e quadros cujos conjuntos sintomáticos podem ser confundidos com o da migrânea crônica. Por isso, fechar o diagnóstico com precisão e segurança é uma atribuição que cabe a um especialista no assunto.

Assim, se por um lado vemos com entusiasmo a popularização dos tratamentos com toxina botulínica para os pacientes enxaquecosos, pois sabemos do quanto isso pode trazer-lhes benefícios, por outro, não queremos ver a terapêutica sendo utilizada a esmo naqueles que não tenham essa indicação.

A classificação internacional das cefaleias é extensa e abrange vários outros tipos de dor. O neurologista é o médico que poderá avaliar e diagnosticar corretamente o tipo de cefaleia que cada paciente apresenta e, assim, definir qual a melhor estratégia de tratamento.

PROTOCOLO

O protocolo para administração da terapêutica consiste na aplicação de toxina botulínica em alguns músculos da face, da cabeça e da região posterior do pescoço.

São em média 30 pontos de aplicação e cabe adefinir a diluição e a dose em cada músculo selecionado, respeitando um limite de dose preconizado para esse tratamento. A aplicação é feita por meio de microagulhas descartáveis.

O procedimento é rápido e causa um pequeno desconforto no paciente no momento da aplicação. Complicações são mínimas. Desde que respeitado o protocolo, os efeitos colaterais referidos podem ser pequenas púrpuras (pontos vermelhos) no local de aplicação, que desaparecem em 24h.

ACOMPANHAMENTO

O neurologista com treinamento e experiência na prática da aplicação de toxina botulínica obterá bons resultados com o  tratamento, uma vez que poderá orientar o paciente sobre todo o procedimento, desde sua indicação, sua forma de aplicação e os possíveis efeitos colaterais.

“Retoques” não existem nessa terapêutica. Os resultados já são percebidos após a primeira semana de aplicação e a duração média dos efeitos é em torno de quatro meses, sendo que este prazo pode variar, de acordo com cada paciente.

COMPORTAMENTO ÉTICO

Tratamentos de saúde, por razões óbvias, só devem ser realizados por profissionais devidamente habilitados em suas áreas e especialidades.

Em relação às terapêuticas com a toxina botulínica para o tratamento da dor de cabeça, o paciente deve estar especialmente atento aos seguintes pontos:

– Formação específica e experiência do profissional nessa área (conheça o histórico do profissional);
– Preços dentro da média (desconfie de valores muito abaixo da média, pois não existem milagres no custo do tratamento);
– Clareza na explicação para o paciente sobre a dose, a diluição e os músculos que serão envolvidos na aplicação.

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