Por Simone Amorim,
Neurologista infantil
No último domingo, eu me emocionei ao ler aqui no blog palavras de mães cujos filhos eu atendo. Chorei por empatia e por também ser mãe. Naquele momento, sozinha, enquanto lia seus relatos, me transportei para a pele delas e pude sentir a grandeza da maternidade, que a tudo enfrenta, que de tudo dá graças e que de tudo sabe tirar as mais belas lições de coragem e superação.
Como neurologista infantil, e devido ao fato de trabalhar também com a terapêutica de reabilitação com Toxina Botulínica na área neurológica, lido constantemente com casos de paralisia cerebral e também com doenças neurológicas degenerativas, que comprometem o sistema nervoso.
Muitas vezes, somos nós os portadores das notícias que os pais não querem ouvir. Mas também somos nós que temos de ter a serenidade para apontar os caminhos possíveis para uma infância que será diferente, sim, mas não necessariamente privada de alegrias, de conforto e de aprendizado.
Lidamos com pacientes que apresentam limitações físicas importantes, com atrasos ou perdas significativas no sistema motor. Muitas vezes, a fala e a cognição também são comprometidas, noutras não. Mas, no geral, são quadros que levam a uma dependência quase que vital dos pais ou cuidadores.
Uma mãe e um pai sempre vão esperar o máximo e o melhor de seu filho, mas, nesses casos, este máximo não significa que ele vá falar, andar, jogar bola ou frequentar uma escola. Cada caso será uma situação diferente, especial.
Assim, ajudar a família a realinhar as suas expectativas frente ao diagnóstico e ao prognóstico da criança é o primeiro grande passo para a reabilitação. É o primeiro grande desafio do médico que acompanha essa família.
Em seus depoimentos, as três mulheres ouvidas aqui na semana passada – Fernanda Cibelle, Thaís e Cíntia – demonstraram níveis de lucidez e força que me fizeram sentir orgulho de, como médica, poder estar ao lado delas nas suas jornadas com seus filhos.
No exercício da profissão, nós temos de aprender a suplantar emoções. Estamos do lado dos pacientes e de seus familiares, inúmeras vezes, nas situações e nos momentos mais desafiadores da vida. Ao médico cabe o papel de manter o foco. Mas, não raro, também nos emocionamos e nos comovemos com as histórias que acompanhamos tão de perto. E disso, poucos desconfiam.
Essa publicação foi atualizada em 24 de agosto de 2019 15:37
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