Sobre o acaso e a Medicina

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Simone Amorim,
Neurofisiologista e Neurologista Infantil

Certos caminhos que a gente trilha na vida, por vezes, parecem surpreendentes. Mas, na verdade, talvez nada venha mesmo por acaso.

Eu sempre quis ser médica. Isso sabia desde cedo. Mas como poderia pensar, décadas atrás, que Neurorreabilitação fosse ser o meu foco?

Até hoje, o termo ainda é pouco conhecido – até mesmo nos meios acadêmicos, e que dirá entre o grande público. E como eu poderia saber, nos tempos em que o jaleco branco era apenas um sonho, que as terapêuticas com toxina botulínica iriam, pouco a pouco, ganhar tanta importância nesse universo?

Eram campos de atuação impossíveis de se prever àquela altura.

Entretanto, de uma coisa eu sempre soube: queria trabalhar para curar, sim, sempre que a cura fosse possível, afinal, isso é o que todo médico quer! Mas também sempre tive uma grande inquietação diante daqueles quadros que, embora não sejam fatais, são incuráveis – os chamados quadros crônicos. Queria trabalhar para diminuir o sofrimento, acima de tudo.

Até algumas poucas décadas atrás, uma vida vegetativa era uma sentença que, muitas vezes, vinha para o paciente crônico junto com o seu diagnóstico. Mas a ciência não para de evoluir e hoje a história mudou.

O manejo de quadros crônicos é cada vez menos conformista e, hoje, podemos dizer com segurança que oferecemos aos pacientes com comprometimentos no campo neurológico um considerável leque de abordagens capazes de proporcionar melhorias das suas condições gerais e, até mesmo, o aumento das suas expectativas de vida, em muitos casos.

Vi essa realidade sendo transformada e, nesta semana, parei para me dar conta de como acompanhei tudo isso muito de perto e de como esse se tornou não só o meu grande foco, como também um significativo diferencial no meu trabalho.

Foi por conta de alguns eventos para os quais fui convidada a participar nos últimos dias que acabei me dando conta dessas questões. No início da semana, falando para uma plateia de médicos, expus resumidamente o meu currículo – da residência em Pediatria, às especializações em Neurologia Infantil e Neurofisiologia e o doutorado em Neurociências – são muitos os anos de estudos ininterruptos, sem parar para pensar o porquê de fazer tudo isso.

Puxa vida, tem sido uma jornada e tanto… E, de repente, eis que constato: a conquista de títulos ao longo desse processo foi, sem dúvida, motivo de grande honra; mas a gente sabe que existe sempre qualquer razão mais subjetiva que nos empurra para a frente e provoca essas inquietações. As minhas (inquietações) me levaram aos cursos que fiz e projetos que abracei.

Neste último semestre, acabei de iniciar a coordenação do Ambulatório de Bloqueio Químico com Toxina Botulínica em Crianças com Sequelas Neurológicas, do Hospital das Clínicas de São Paulo (HCFMUSP), um projeto pioneiro na Residência de Neurologia Infantil daquela instituição, que visa introduzir a ótica da Neurorreabilitação entre os médicos residentes. E, assim, o conhecimento assimilado e colocado na prática clínica começa a ser compartilhado com quem está chegando na área. Isso é algo para lá de gratificante! E também é surpreendente, se paro para pensar que jamais foi planejado. Mas, com certeza, não é algo que está acontecendo por acaso…

Assim como não é por acaso que estou aqui hoje, 18 de Outubro, Dia do Médico, fazendo essas reflexões em meio a um congresso, em Salvador-BA, acompanhando exposições de profissionais que são, na atualidade, referências nacionais e internacionais em toxina botulínica na área da Neurorreabilitação.

Não, nada disso é por acaso… É sábado de muito sol, filho e marido estão em São Paulo, assim como as famílias da maior parte dessas dezenas de colegas aqui presentes também estão à sua espera em algum lugar, e assim como as de tantos outros, que mesmo estando na mesma cidade, estão também longe de casa, porque estão de plantão ou porque estão se dedicando àquele curso ou àquele workshop essencial para a sua constante atualização. Há sempre um algo mais que nos move.

Não é por acaso que hoje, nós, médicos, estamos todos de parabéns!

Essa publicação foi atualizada em 25 de agosto de 2019 08:59

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Produzido por
Dra. Simone Amorim

Neurofisiologista e Neurologista Infantil

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