Terapia com toxina botulínica ainda surpreende

Por Simone Amorim,
Neurologista Infantil

No último mês, o mesmo em que acompanhei o XXV Congresso Brasileiro de Neurologia, em Goiânia, tive a oportunidade de falar em três rádios diferentes, de São Paulo (BandNews, Globo) e do Rio de Janeiro (Roquette Pinto), sobre um assunto que considero muito importante na minha especialidade: o uso da toxina botulínica em crianças e em pacientes com comprometimentos na área neurológica.

Este interesse da mídia pelo tema é algo extremamente positivo, uma vez que abre a possibilidade para que nós, especialistas, possamos levar essas informações ao conhecimento do público em geral, tirar dúvidas e, principalmente, derrubar mitos em relação àquela substância.

Sim, muitos mitos ainda rondam a toxina botulínica, que ficou mais conhecida pelo nome de uma das marcas, o Botox. Noto que é com grande surpresa que a mídia recebe a informação de que a substância age na reabilitação de pacientes com comprometimentos neurológicos, como no caso de crianças com paralisia cerebral. E olha que o uso medicinal da substância está liberado no país desde a década de 90.

O uso da toxina botulínica no Brasil foi autorizado em 1992 para tratamento de estrabismo e distonia, sendo que em 1999 foi liberado também para outras patologias como bleferoespasmo, espasmo hemifacial, distonia e espasticidade – todas elas diretamente ligadas à área neurológica.

Hoje, a toxina botulínica já faz parte do arsenal terapêutico de diversas áreas da Medicina. Nos Estados Unidos, a substância é utilizada desde a década de 70 e, desde então, as terapêuticas com a toxina botulínica já foram aprovadas em pelo menos 80 países, para mais de 20 indicações diferentes.

Além da Neurologia, ela aparece também como aliada em tratamentos nas áreas da Urologia, da Fisiatria e, como já dito acima, até da Oftalmologia.  Inclusive, vale aqui registrar uma curiosidade científica: o primeiro médico a publicar nos Estados Unidos um trabalho comprovando a utilização terapêutica da toxina foi o oftalmologista Alan Scott, que confirmou a substância como uma alternativa eficaz para o tratamento do estrabismo, sem necessidade de cirurgia, em 1973.

Somente mais tarde, depois de muitos estudos e comprovação da eficácia da substância em várias terapêuticas, é que ela passou a ser utilizada também na área da estética.

Porém, justamente por associá-la primeiramente com a área estética, muitas pessoas estranham quando cogitamos a possibilidade da aplicação da toxina botulínica em crianças. Nesse caso, vale a pena ressaltar sempre que a substância é ministrada a nível muscular e é ali que irá agir.

As principais indicações são para o tratamento da espasticidade (contração exagerada dos músculos) ou sialorréia (salivação excessiva), sintomas que são muito comuns nas crianças que apresentam paralisia cerebral ou doenças neurodegenerativas.

O  tratamento é seguro e eficaz, o desconforto é momentâneo e os benefícios a curto, médio e longo prazo são bastante satisfatórios.

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