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Transtornos mentais exigem abordagem multidisciplinar

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Se existe um ponto em que a Medicina e a Psicologia convergem e precisam caminhar juntas, para o bem do paciente, este ponto é o dos transtornos mentais. Algumas mudanças nessa área estão sendo amplamente debatidas entre os profissionais e poderão resultar em novas abordagens em consultórios, a partir da publicação, no último final de semana, do Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais, o DSM 5.

As mudanças, que são de ordem prática para médicos e psicólogos que integram equipes de formulação de diagnóstico na área, têm sido alvo de preocupação por parte de pais, educadores e pessoas já diagnosticadas nesses campos. Questões relacionadas ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e os Transtornos do Espectro Autista são as que mais têm ganhado destaque.

Pois bem, é preciso explicar então o que muda, porque muda e que impacto que isso poderá ter, na prática, na condução terapêutica desses pacientes e na orientação dada a seus familiares. Coisa para mais de um post e muitas ponderações, certamente.

Mas, em primeiro lugar, vale ressaltar que, para fins diagnósticos, o documento oficialmente usado no Brasil é o chamado CID (Classificação Internacional de Doenças), e não o DSM. Entretanto, este tem uma relevância muito grande junto à comunidade científica e, por isso, apesar das novas abordagens sugeridas não serem obrigatórias no Brasil, a tendência é de que elas influenciem fortemente a formulação de diagnósticos e a adoção de condutas.

Além disso, em se tratando de problemas mentais, poucos quadros clínicos se encaixam nas definições tradicionais de doença – isto é, algo do qual se possa falar sobre causas explícitas e identificar os mecanismos de “mau funcionamento”. Nesse sentido, o DSM é uma importante ferramenta de referência para os profissionais da área.

“A elaboração do diagnóstico de transtornos mentais é super complexa. O DSM é uma ferramenta baseada em evidências para guiar a avaliação clínica e o diagnóstico de transtornos psiquiátricos. Os critérios diagnósticos são baseados em descrição de comportamentos”, explica a neurologista infantil Cecília Pellegrini.

O ideal é que o diagnóstico de transtorno mental seja feito sempre por uma equipe multidisciplinar, na observação da psicóloga Cássia Denadai, especialista em Terapia Comportamental Cognitiva, com cerca de 25 anos de experiência e que, no momento, participa de um curso de Clínica Psiquiátrica pela FMUS-IPq, no qual o DMS é um dos pontos em destaque.

“Essa equipe preferencialmente deve contar com psiquiatra, neurologista, psicólogo e também com terapeuta ocupacional, assistente social e enfermeiro, todos com formação na área da saúde mental, para que se tenha uma visão mais abrangente do quadro do paciente”, avalia Cássia.

Ambas as especialistas ressaltam que, em última instância, o diagnóstico é fechado pelo médico. “É o médico quem faz uso do DSM e do CID, mas todos os profissionais que lidam com saúde mental precisam conhecê-los bem, pois eles devem trabalhar junto com o médico na investigação diagnóstica e, depois, nas condutas terapêuticas”, explica a psicóloga.

Cecília, por sua vez, ressalta que as mudanças recentes no DSM reforçam a importância da multidisciplinaridade.

“Duas mudanças são muito importantes na nova versão do DSM: primeiro, a sua nova metaestrutura, na qual os capítulos são organizados de acordo com o estágio de evolução do neurodesenvolvimento, desde a infância, passando pelos diagnósticos mais frequentes na idade adulta, encerrando com os transtornos neurocognitivos; e, segundo, a adoção de medidas transversais: várias avaliações dimensionais serão usadas para medir a grande variedade de sintomas na elaboração de um diagnóstico, plano de tratamento e monitoramento. Serão medidas também as dificuldades em seu grau de gravidade ou comprometimento funcional, ou seja, serão utilizados avaliações neuropsicológicas para ajudar na elaboração do diagnóstico”, relata a neurologista.

Conclusão: há sim novidades no horizonte no que se refere à investigação, diagnóstico e condução terapêutica de transtornos mentais. E sim, é muito importante acompanhar o que dizem os manuais e as mudanças e debates travados no meio científico.  Porém, acima de tudo, o que as alterações da DSM ratificam é que a definição de transtornos, a classificação de pacientes e a escolha de seu tratamento são sempre complexas e, quanto maior for o grau de interdisciplinaridade entre os profissionais da área da Saúde, no atendimento e apoio àquele indivíduo, melhor.

Nos próximos posts sobre o tema DSM 5, especialistas da Clínica Vita falarão mais sobre TDAH e Transtorno do Espectro Autista. Você pode participar, enviando para o blog as suas dúvidas a esse respeito. Deixe aqui seu comentário ou escreva para www.blogdavita.com.br.

SAIBA MAIS

O que é o DSM e como ocorreu a sua última revisão

O DSM ou Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais – tradução do inglês “The Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” – é um guia baseado em evidências, cuja finalidade é orientar a avaliação clínica e o diagnóstico de transtornos psiquiátricos. A primeira versão foi publicada em 1952 e, de lá para cá, passou por quatro revisões.

O projeto de desenvolver e planejar a 5ª edição do DSM começou em 1999, capitaneado pela American Psiquiatric Association (APA), tendo então culminado na publicação de diversos artigos. Numa segunda fase, 13 conferências internacionais foram realizadas, entre 2003 e 2008, pelo National Institute of Helth (NIH), dando origem a mais uma grande série de artigos e monografias.

Em 2007, foi montada uma força-tarefa, que formou grupos de estudos para conduzir revisões de literatura com as fontes produzidas. Desde então, esses grupos passaram a se reunir presencialmente duas vezes e a promover teleconferências mensais, ouvindo também comentários públicos dos profissionais clínicos, de cientistas, pacientes, familiares e associações.

A partir de todos esses eventos, foi elaborado um documento com recomendações detalhadas sobre as mudanças recomendadas (novo transtorno, eliminação de um transtorno e mudanças nos critérios diagnósticos), justificativa das mudanças, magnitude de cada mudança e evidência empírica utilizada em cada mudança recomendada.

O documento foi revisado pela Scientific Review Comittee (SCR), que considerou os riscos e benefícios para a saúde pública das mudanças no DSM-V e, então, o material foi novamente submetido à APA para as revisões finais. O manual aprovado foi publicado em dezembro de 2012, tendo sido lançado oficialmente no último final de semana.

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