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Tratamento de ponta para a distonia

2015-02-06T00:00:00+00:00 6 de fevereiro de 2015|Artigos, Destaques, Neurorreabilitação|0 Comments

Simone Amorim,
Neurofisiologista e neurologista infantil

Interessante como não nos damos conta do quão complexo é o ato de realizar alguns dos nossos movimentos mais básicos. Afinal, grande parte deles é automática, isto é, não precisamos mesmo parar para pensar antes de realizá-los.

Mas isso não quer dizer que esses movimentos sejam simples. Para movimentar o pescoço, por exemplo, são necessários dezenas

O simples ato de girar o pescoço exige perfeita sincronia entre diversos músculos.

O simples ato de girar o pescoço exige perfeita sincronia entre diversos músculos.

de músculos em perfeita sincronia para girar, flexionar, estender e inclinar a cabeça em diferentes direções.

São habilidades que só nos damos conta delas quando somos surpreendidos com alguma limitação. E somente quando isso acontece é que percebemos o quanto são valorosas as terapêuticas de reabilitação.

Pacientes com patologias neurológicas crônicas, sejam elas de cunho genético ou adquiridas ao longo da vida, muitas vezes, são afetados por sintomas que impõem esse tipo de limitação às movimentações mais básicas.

Distonia cervical, torcicolo, anterocolo (queda da cabeça para a frente) ou retrocolo (queda da cabeça para trás), por exemplo, são quadros comuns nesses casos. E são situações que dificultam bastante o manejo para os cuidados gerais de saúde e a realização de terapias com esses indivíduos, assim como a realização de suas atividades mais básicas no dia a dia.

Assim, dada a sua relevância no universo dos pacientes neurológicos crônicos, o tema distonia (que significa contração exagerada e involuntária dos músculos) mereceu aulas especiais durante o último Congresso da Associação Mundial de Neurotoxinas (Toxins 2015), realizado em Lisboa (Portugal), de 14 a 17 deste mês.

Nos Estados Unidos, onde a terapêutica com toxina botulínica já vem sendo utilizada com pacientes neurológicos crônicos desde os anos 1980, a liberação do uso da substância pelo FDA (o órgão de regulação da Saúde no país, equivalente à Anvisa no Brasil) é considerado um divisor de águas para a qualidade de vida desses pacientes. Pois, antes disso, não havia praticamente nenhum tratamento para distonias focais, e distonias generalizadas, que eram controladas apenas com fortíssimas medicações orais ou, em casos muito severos, com cirurgias cerebrais de alto risco.

Hoje, praticamente todos os planos de saúde daquele país cobrem o uso da toxina botulínica para finalidades médicas. Afinal, a terapêutica é vista, inclusive, como um meio de deixar o paciente mais saudável e menos susceptível a complicações decorrentes do seu quadro crônico de saúde.

No Brasil, a terapêutica já consta no rol de procedimentos da Anvisa. Logo, também recebe cobertura pelos planos de saúde. Entretanto, o conhecimento sobre esses tratamentos ainda não se popularizou, e muitos são os pacientes, familiares, cuidadores e, até mesmo, especialistas que desconhecem os benefícios que o tratamento com a toxina botulínica pode trazer para esses grupos de pacientes.

Portanto, assim como já fiz aqui no blog a respeito da enxaqueca, acho importante listar alguns pontos consensuais a respeito da terapêutica com toxina botulínica para o tratamento da distonia, alinhados durante o evento, que reuniu especialistas de todo o mundo:

A ação

Quando a toxina botulínica é injetada nos músculos afetados pela distonia, ela consegue bloquear neurotransmissores que levam à contração muscular e aos espasmos excessivos. Podemos dizer que, com isso, há uma ação relaxante no músculo, que leva à redução da distonia.

Quem conduz o tratamento

O encaminhamento para a terapêutica com toxina botulínica em pacientes com sintomas de distonia pode ser feito por qualquer médico que o acompanhe.

Porém, a condução da terapêutica, isto é, o plano de aplicação e a aplicação propriamente dita da substância, tem de ser feito por um médico com a devida formação para isso. Geralmente, um neurofisiologista, um neurologista ou um fisiatra são os especialistas que buscam essas expertises.

É muito importante que, antes de se submeter ao tratamento com a toxina botulínica, o paciente busque conhecer as credenciais do especialista em relação a essa terapêutica. Quando o profissional é uma referência no assunto, é fácil saber e obter informações sobre ele.

Exames e diagnósticos

Antes de traçar o plano de aplicações, o médico precisa avaliar todo o quadro clínico geral do paciente, a fim de determinar quais são os conjuntos musculares que devem receber a medicação e em que dosagens. Além da avaliação clínica em consultório e do conhecimento de todos os exames prévios que o paciente trouxer, poderá ser solicitada ainda uma eletromiografia, a fim de medir a atividade muscular.

Resultados e duração

Existem pacientes que relatam melhoras já no dia da aplicação, ou dentro da primeira semana após a sessão. No entanto, o tempo aguardado para o aparecimento de resultados é de duas semanas.

As aplicações devem ser refeitas num intervalo de três a quatro meses. Lembrando que, nesse período, é criada uma janela de melhoria das condições gerais do paciente, que potencializam as possibilidades de resultados positivos de outras terapias, tais como a fisioterapia, a hidroterapia e a fonoterapia.

Não é recomendável que a reaplicação das injeções ocorra antes desse prazo (de três a quatro meses), pois isso pode fazer com que o paciente desenvolva anticorpos para a toxina botulínica, tornando-se resistente aos efeitos positivos do tratamento.

Ao mesmo tempo, a possibilidade de refazer, periodicamente, as aplicações permite o ajuste de dosagens e grupos musculares beneficiados com a terapêutica. Assim, o plano de tratamento vai se tornando cada vez mais aprimorado.

Efeitos colaterais

Os efeitos colaterais da terapêutica com toxina botulínica não costumam ser significativos, mas podem ocorrer. Entre eles estão: região da aplicação dolorida ou com pequeno hematoma (roxidão), fraqueza muscular e boca seca.

Tais efeitos, quando surgem, costumam desaparecer em poucos dias após a realização da aplicação – isto, claro, lembrando que estamos falando da situação em que a substância é administrada por um ESPECIALISTA, com TOTAL preparo para a condução terapêutica.

A terapêutica da toxina botulínica pode ser feita por décadas, sem causar efeitos colaterais a longo prazo no paciente.

Porém, podem existir interações medicamentosas importantes entre medicações que o paciente estiver tomando e a toxina botulínica. Todos os medicamentos, vitaminas ou suplementos dos quais o paciente fizer uso devem ser relatados para o médico.

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