Tratar a depressão inclui o desafio de vencer preconceitos e estigmas

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Poucos quadros clínicos geram tão pouca empatia e sofrem tantos preconceitos quanto a depressão. Apesar de os casos drásticos suscitarem comoção, para a maioria das pessoas a luta contra a doença acaba sendo mesmo uma jornada bastante solitária – vivida em segredo ou, então, envolta em recriminações e julgamentos, quando assumida publicamente.

Pouca empatia e muitos julgamentos: assumir publicamente a depressão exige coragem para lidar com essa dura realidade, que pode ser modificada por meio do processo da psicoeducação

Acostumada a ver isso de perto, a psicóloga Cássia Denadai é taxativa sobre a importância do processo que chama de psicoeducação. Ele começa com o paciente, mas deve se estender também à família.

“Ideal mesmo é que a psicoeducação fosse uma realidade em nossa sociedade. A caminhada ainda é longa para isso acontecer. Mas, felizmente, já estamos vendo avanços na conscientização”, considera a especialista, lembrando que a atual epidemia de depressão tem nos colocado a todos, de uma forma ou de outra, frente a frente com essas questões.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que os transtornos depressivos atingem hoje quase 5% da população mundial. Mas é sabido que esse percentual é muito maior, considerando os altos índices de casos subdiagnosticados.

Para os especialistas, o caminho para deixarmos de ser surpreendidos pelos efeitos devastadores da depressão passa por entender que a saúde mental é um aspecto da saúde global – ou seja, que também precisa de atenção e de cuidados, e que as doenças nessa área não são uma invenção ou falta de força de vontade dos pacientes. A depressão pode acontecer com qualquer um de nós e, neste exato momento, deve estar acometendo pessoas à nossa volta, sem nem sequer desconfiarmos disso.

RESISTÊNCIA EM ASSUMIR E TRATAR A DOENÇA

Especialista em Terapia Comportamental Cognitiva (TCC), Cássia observa que os tabus que envolvem a saúde mental são tão fortes que chegam a gerar resistência na autoaceitação dos próprios pacientes. Muitos têm dificuldades para aceitar que estão doentes e, depois, para assumir que estão em tratamento.

Muitas vezes, a primeira grande barreira para o sucesso no tratamento da depressão é aceitação do quadro pelo próprio paciente, que não se reconhece como vítima de uma doença mental

Segundo a psicoterapeuta, não são raros os casos de pessoas que fazem terapia ou tomam as medicações prescritas pelo psiquiatra em segredo. Há quem chegue a abrir mão do reembolso ou da cobertura do plano de saúde para o tratamento, temendo que o assunto chegue ao conhecimento da empresa onde trabalha. Por vezes, existem constrangimentos de expor a situação até mesmo entre os familiares mais próximos ou os cônjuges.

Entretanto, esses são indivíduos que pelo menos já estão fazendo o importante movimento de buscar ajuda especializada. Ainda mais grave é quando os preconceitos e estigmas levam a pessoa a acreditar que não tem o direito de lutar pelo seu bem-estar psicoemocional ou, então, a ver isso como uma questão secundária ou até supérflua.

“Para muita gente, a depressão é sinônimo de fraqueza. Outras tantas atribuem o quadro a falhas na formação e na educação. Tudo isso são grandes equívocos e é muito importante trabalhamos com o paciente a mudança dessas visões”, explica a especialista.

Contudo, após vencer as próprias barreiras, o paciente geralmente precisa ainda enfrentar visão equivocada daqueles que estão em seu entorno. Isso, claro, torna a batalha contra a doença muito mais difícil de ser vencida.

O PROCESSO DE PSICOEDUCAÇÃO

Por toda essa conjuntura, a psicóloga vê como essencial o trabalho de psicoeducação junto ao paciente e, sendo possível, incluindo nisso também os seus familiares mais próximos. De acordo com ela, essa é uma tendência tão forte nos atuais programas de tratamento, que já consta, inclusive, dos protocolos de atendimento de alguns serviços de referência, como o do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (IPq).

Fazem parte das abordagens psicoeducacionais, o entendimento de questões como: a importância do estilo de vida e dos fatores ambientais no quadro depressivo (tais como: prática de atividades físicas, alimentação, rotinas de sono, etc.), a atitude frente à doença (aceitação do quadro, sem no entanto assumir uma postura vitimista ou derrotista), bem como o papel e o uso responsável das medicações (quando o paciente faz uso delas), etc.

Já com os familiares, além de todos esses conceitos, são feitas também abordagens de esclarecimento sobre como lidar de uma maneira positiva com uma pessoa em depressão.

“Muitas vezes, até por querer ajudar, as pessoas próximas tentam estimular de forma equivocada a pessoa em tratamento. Insistem por exemplo que elas têm de pensar positivo e que não têm razões para estar desse jeito. Mas acontece que a depressão é um desequilíbrio neuroquímico. Não é uma escolha do doente. Ser pressionado a ficar bem é algo que só colabora para exacerbar o sentimento de culpa e de desemparo dessa pessoa”, observa Cássia.

Ainda pior é quando o paciente passa a conviver com o estigma da doença, tendo todas as suas reações e resultados associados ao seu quadro de saúde mental.

“Quem toma medicações, principalmente, costuma passar muito por isso. Tudo é creditado à doença e, muitas vezes, até de forma pejorativa e humilhante para a pessoa, como se ela não tivesse a mesma capacidade de dissernimento ou o direito de ficar triste, aborrecida e se irritar, como qualquer outra pessoa”, observa Cássia.

TRATAMENTO MÉDICO

Em geral, os especialistas em saúde mental são unânimes no entedimento de que o suporte psicológico e o acompanhamento médico são complementares – e nunca excludentes. Sendo muito comum que o psicólogo oriente a avaliação psiquiátrica e/ou neurológica (essenciais nos casos que envolvem o uso de medicação) ou que os médicos sugiram a psicoterapia em associação ao tratamento farmacológico.

Neuromodulação: procedimento de reconhecida eficácia no tratamento da depressão também pode ser realizado de forma associada com outras terapêuticas, oferecendo excelentes resultados

Hoje, a Neuromodulação (clique aqui no link para saber mais sobre esse procedimento) também é referida como um tratamento de primeira linha para melhoria dos quadros depressivos, sendo muitas vezes associada ao tratamento medicamentoso e/ou à psicoterapia.

Essa publicação foi atualizada em 24 de agosto de 2019 14:59

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