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Tremores, tiques, distonias e outros distúrbios do movimento

Simone Amorim,
Neurofisiologista e neurologista infantil

Os distúrbios do movimento representam um capítulo muito grande dentro da Neurologia. No começo de outubro, estive em Hong Kong para o Congresso Internacional de Distúrbios do Movimento e Doença de Parkinson e cheguei a gravar e postar breves vídeos nas minhas redes sociais sobre esse tema. Mas senti necessidade de aprofundar algumas questões aqui no Blog, deixando registrado alguns tópicos que considero fundamentais para pacientes, pais, familiares e cuidadores que possam estar na rede, iniciando as suas pesquisas a respeito do assunto.

Para os pacientes e suas famílias, é importantíssimo sublinharmos que inúmeras doenças cursam para os distúrbios do movimento, seja como sintoma inicial, seja com a evolução do quadro clínico. Por isso, além de sabermos diagnosticar corretamente as causas dessas alterações, precisamos estar preparados para trata-las.

Promoção da qualidade de vida e de melhores níveis de autonomia para os pacientes são as palavras-chave nesses casos – lembrando sempre que os resultados são individualizados e que contam para isso diversas variáveis, a começar pelo quadro clínico específico de cada um.

Hoje temos uma enorme gama de alternativas de tratamento, que incluem medicações orais, injetáveis (com destaque para a terapêutica com toxina botulínica), procedimentos específicos como a Neuromodulação não-invasiva / estimulação magnética transcraniana (EMT) e até técnicas cirúrgicas convencionais e de estimulação cerebral profunda, além de abordagens complementares diversas nas áreas de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, entre outras.

Então, vamos entender: distúrbios do movimento são aqueles quadros caracterizados por movimentos anormais excessivos, e que não podem ser controlados pela pessoa. Tecnicamente são chamados de hipercinesias e incluem sintomas como tremores, distonias, coreias, balismos, mioclonias e combinações variadas entre eles. Abaixo, falo um pouco mais detalhadamente sobre três desses quadros, que estão entre os mais recorrentes e que por isso são alvos de muitas dúvidas por parte dos pacientes e seus familiares:

Distonia: é um distúrbio motor caracterizado por movimentos repetidos, involuntários que cursam com alterações da postura. Caracterizada pela excessiva rigidez muscular e pela descoordenação do movimento, a distonia agrava-se sobretudo quando o paciente deseja ter o controle sobre os seus movimentos e não consegue, tendendo a melhorar quando ele dorme e “relaxa” os músculos. Sem tratamento, a distonia é muito impactante na qualidade de vida. Além das limitações motoras, ela causa dor e pode levar a severos desvios posturais que podem também comprometer órgãos e funções, como a marcha, a respiração, a deglutição, etc. A terapêutica com toxina botulínica costuma ser o tratamento de primeira escolha nesses casos, podendo também serem usadas medicações orais, além de terapias de apoio (Fisioterapia, Fonoterapia, Terapia Ocupacional, etc.).

Tiques: são movimentos NORMAIS, porém realizados de forma repetitiva e fora de controle pelo paciente (como piscar, mexer os ombros, contrair o rosto, etc). Cerca de 25% das crianças e jovens apresentarão tiques transitórios em algum momento da vida. As causas genéticas estão muito relacionadas a esse sintoma, sendo que existem determinados quadros que tendem fazer com que os tiques evoluam de forma crônica, como no caso da Síndrome de Gilles de la Tourrete. Com o tratamento adequado, esses sintomas podem melhorar muito. A abordagem pode incluir psicoterapias comportamentais, uso medicação oral e terapêutica com toxina botulínica. Na vida adulta, quando isso se torna muito refratário, as terapias de Neuromodulação não-invasiva (estimulacao magnetica transcraniana) também podem ser utilizadas.

Tremores: os tremores também são um sintoma neurológico muito comum e, não raro, muito assustadores para os pacientes. Afinal, muitas vezes eles podem sim estar relacionados a quadros neurológicos que levam a outros comprometimentos de forma progressiva, como no caso da Doença de Parkinson. Porém, existe também o chamado tremor essencial, no qual a pessoa apresenta um tremor de baixa amplitude, que se manifesta durante um movimento (tremor de ação) e piora quando se está estressado ou ansioso. Sabemos que esses casos estão relacionados a bases genéticas, embora os mecanismos ainda não estejam completamente esclarecidos. Passar pela avaliação do neurologista é fundamental para um correto diagnóstico e a indicação do devido tratamento, quando for esse o caso.

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