Por Simone Amorim,
Neurologista Infantil
A ciência pode e deve ser um agente de transformação social, assim como a educação também o é. Vejo isso como um ciclo vicioso. Todo cientista deveria ser também um empreendedor social, transformar seu projeto de pesquisa em algo que possa trazer benefício aos cidadãos. Mais que nunca, essas convicções que trago comigo foram reforçadas após ter a oportunidade de ouvir, ontem, o que tem a dizer um dos maiores neurocientistas das últimas décadas, o dr. Miguel Nicolelis.
É do dr. Nicolelis – um paulistano e torcedor ferrenho do Palmeiras – a autoria do célebre projeto de fazer uma criança paraplégica dar o chute inicial na Copa do Mundo de 2014. Atualmente ele é diretor do Instituto de Neurociências da Universidade de Duke (USA) e, já há alguns anos, está também à frente do projeto de pesquisas “Campus do Cérebro”, desenvolvido aqui no Brasil, no Rio Grande do Norte.
A aula dada ontem fez parte da programação do I Congresso Sabará de Especialidades Pediátricas (evento promovido pelo Hospital Infantil Sabará, em São Paulo) e trazia como tema “A ciência como agente de transformação social”. Nós, médicos e pesquisadores participantes do evento, fomos apresentados ao Projeto Campus do Cérebro.
Trata-se de um projeto audacioso que abrigará, na cidade de Macaíba, na periferia de Natal – RN, um centro de pesquisas avançadas em Neurociências e que contará com um programa de assistência materno-infantil (achei mais informações sobre este tema neste link), que atenderá à população da cidade e circunvizinhança. O projeto social atende às crianças da região em oficinas e laboratórios, em horários extra classe, com o objetivo de estimular o interesse pelas ciências.
Entendi que será um projeto de iniciação científica desde a mais tenra idade. As crianças aprenderão na prática experiências que até hoje só podem ler nos livros, muitas vezes sem entender o quê e o porquê.
Este projeto já vem mostrando seus frutos e transformando a vida das crianças e famílias atendidas com um alto valor agregado. Talvez números, dos quais eu não disponho aqui para partilhar neste post,
expressem bem melhor os resultados.
Mas o fato para além disso é que a transformação social que projetos assim fazem em seu local de instalação transcende estatísticas e previsões econômicas. As melhorias na auto-estima, na capacidade de questionamento, na capacidade de solução de problemas são transformadas em dignidade, cidadania, desejo de crescer e evoluir pessoal e profissionalmente. Eu acredito nisso.
Projetos educacionais deste nível também elevam as chances de ajudarmos na qualificação desses profissionais para que façam uso deste conhecimento, futuramente, no mercado de trabalho. É
um bem que eles levarão consigo.
Saí da palestra do dr. Nicolelis com a sensação de que tive o privilégio de assistir a uma aula de alguém que, muito mais que um neurocientista brilhante, é também um apaixonado por seu ofício; um sonhador que acredita em seus sonhos e vai em busca de suas realizações.
Parabéns ao dr Nicolelis por transformar em realidade o que para a maioria das pessoas não passaria de utopia.
Essa publicação foi atualizada em 24 de agosto de 2019 15:38
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