Guilherme Foizer,
Ortopedista e traumatologista

lais e isis 300x119 Por que traumas na coluna são tão delicados?

A esquiadora Lais Souza, à esquerda; e a atriz Isis Valverde, à direita. Ambas foram vítimas de traumas na coluna cervical.
Imagens: montagem sobre fotos de divulgação.

Numa mesma semana, duas jovens famosas se envolveram em acidentes que ocasionaram trauma de coluna cervical. No primeiro caso, a esquiadora e ex-ginasta brasileira Lais Souza, sofreu uma queda em uma pista de esqui, e segue agora internada em estado grave.

No segundo caso, a atriz Isis Valverde foi vítima de um desastre automobilístico, mas, apesar do risco que correu, felizmente ela já recebeu alta hospitalar.

A área da coluna em que as jovens sofreram as lesões é delicada. No interior das vértebras passa o cordão medular que forma as raízes nervosas, que se dirigem a diversas partes do corpo.

As consequências de cada tipo de trauma geralmente estão relacionadas com a localização da vértebra afetada, em relação à área medular, e ao tipo de lesão sofrida (por exemplo, se houve ou não alteração do diâmetro do canal por onde a medula ou os nervos passam).

Traumas na área cervical envolvem o risco de morte instantânea ou de tetraplegia como sequela, quando afetam completamente a função da medula. Ou seja, quando o paciente sobrevive, muitas vezes perde o movimento dos quatro membros.

info trauma V f improf 388x418 Por que traumas na coluna são tão delicados?A vértebra lesionada no acidente sofrido por Isis Valverde foi a C1. Sofrendo um trauma nessa região, ela correu sérios riscos.

Conforme as notícias divulgadas, embora a atriz tenha sofrido uma fratura (quebra ou fissura do osso), por sorte a lesão não levou a um desvio da vértebra, o que poderia comprometer a medula e/ou nervos que passam pela região, tornando gravíssima a situação.

Já a atleta Lais Souza sofreu um trauma na vértebra C3 (que também fica na região cervical), de acordo com informações divulgadas pelo Hospital da Universidade de Utah-EUA, onde a jovem está internada. Lesões por trauma nessa vértebra são relativamente raras, mas são muito graves quando acontecem.

As notícias divulgadas sobre o caso não especificam se houve ou não fratura no local, mas já está claro que houve uma deslocação da vértebra. Eis o grande problema.

Conforme noticiado, a atleta sofreu uma torção após um choque contra o galho de uma árvore, enquanto esquiava. Com esse tipo de lesão, muitas vezes a pessoa vai a óbito no local, devido à insuficiência respiratória aguda, pela parada da função do diafragma – nessa região passa a raiz nervosa que forma o nervo frênico, responsável por esse músculo. Com o trauma, os músculos intercostais (entre as costelas e responsáveis por parte da respiração) e o diafragma acabam ficando paralisados.

Em mais de 90% dos casos, as lesões só poderão ser definidas após 48h,  que compreende o período chamado de “choque medular”. Nesse período, a medula se “desliga” e ao se “religar” é que os médicos irão definir como ficou o quadro neurológico do paciente.

A equipe médica responsável decide então, se será necessário ou não um procedimento cirúrgico. No caso de Lais, a decisão foi a de realizar uma operação para o realinhamento da coluna antes mesmo de saber como iria ficar o quadro, devido a gravidade da lesão.

Agora é preciso aguardar as respostas do organismo para que sejam definidas as condutas posteriores. A esquiadora tem 25 anos e um bom preparo físico, isso conta favoravelmente, mas a situação ainda é bastante delicada. Estamos na torcida por uma evolução positiva de toda a situação.