Por Simone Amorim,
Neurologista Infantil
Porém, como em toda ação que vai contra hábitos arraigados, as resistências também são muitas, e até naturais. Insistir nos esclarecimentos é papel dos médicos e profissionais de saúde – afinal, convivemos diariamente com as consequências dos acidentes e, por outro lado, temos a ciência de que o equipamento em nada ajuda no desenvolvimento neuropsicomotor da criança.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e as matérias que saíram na mídia nas últimas semanas têm focado nos riscos do andador. Eu mesma já dei algumas entrevistas e, sempre que posso, lembro que a estatística é de um acidente para cada três crianças que usam o
equipamento.
Entretanto, tenho ouvido e lido os argumentos daqueles que se apressam em lembrar: “eu e meus irmãos usamos e nunca nos acidentamos”, “é só os pais estarem atentos, que nada de mau vai acontecer”, “se a criança se machuca, o problema não é do andador, mas da negligência de quem a deixou sozinha nele”, e por aí afora.
Ok, vamos admitir então que os pais, avós, tios, padrinhos, etc. que decidem presentear uma criança com um andador assumem automaticamente o compromisso de estar junto dela, durante cada segundo de uso – e com as mãos livres, para ampará-la, guiá-la e poder segurar, caso seja necessário. Aí vem a pergunta: que benefício o equipamento traz à criança para valer a pena a sua aquisição e o seu uso?
Como neurologista infantil, posso afirmar categoricamente: nenhum benefício.
A marcha faz parte do desenvolvimento neurológico. Quando nascemos, nosso cérebro é muito imaturo, mas já está pronto para começar a aprender tudo o que fazemos, mas tudo a seu tempo.
Não há nenhum indício que mostre que a criança que anda cedo é mais esperta ou se desenvolve melhor – nem física, nem intelectualmente. Porém, a ansiedade da família, a comparação entre irmãos e primos, as cobranças dos parentes, muitas vezes fazem com que os pais tomem a decisão de usar o andador, na esperança de acelerar ou estimular o processo.
Enfim, no final das contas, a família acredita piamente que está fazendo um bem ao desenvolvimento neuropsicomotor da criança ao colocá-la no equipamento. Então é preciso esclarecer que isso é simplesmente um mito.
O que é mais importante entender é que cada indivíduo tem o seu tempo de maturação. Algumas crianças podem adiantar ou atrasar esse processo, sem que isso signifique problemas neurológicos. Em caso de dúvida, o pediatra irá encaminhar o bebê para um neurologista infantil.
Após as avaliações clínicas, caso seja detectado que o bebê tem, de fato, algum atraso no desenvolvimento, as abordagens irão variar de acordo com cada situação. Isso poderá envolver terapias das mais diversas, incluindo fisioterapia e outras formas de estímulo, mas o andador certamente estará fora dessa lista de medidas que poderão ajudar no desenvolvimento da criança.
Essa publicação foi atualizada em 24 de agosto de 2019 15:37
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