Blog da Vita

Muita calma nessa hora

2014-08-06T00:00:00+00:00 6 de agosto de 2014|Artigos|0 Comments

Simone Amorim,
neurofisiologista e neurologista infantil

Alguns temas são por demais delicados para serem discutidos de forma superficial. Tudo o que envolve mudanças de diretrizes e novas orientações no manejo da Saúde exige discussões profundas entre a comunidade científica e a comunidade, como um todo. Perguntas chatas precisam ser feitas, respostas precisam ser exigidas, críticas e questionamentos precisam estar na mesa, antes da adoção de um novo protocolo.

Preocupa-me a forma como a questão do uso da substância canabidiol para o controle da epilepsia vem sendo abordada. Esse é o típico caso em que alguém precisa dizer: “muita calma nessa hora”.

De um lado, temos muitos pais de crianças com epilepsias de difícil controle ansiosos pela liberação da substância no Brasil. Não lhes podemos tirar a razão. Afinal, existem notícias de crises amenizadas a partir do uso da substância.

Para um pai e uma mãe, ver um filho ter dezenas de convulsões diárias é algo não só angustiante, como desesperador. E qualquer coisa que prometa trazer algum alívio nesse sentido, num primeiro momento, parecerá muito bem-vinda!

Entretanto, o que se precisa levar em consideração em relação ao uso do canabidiol, em primeiro lugar, é o seguinte: até o momento não existem estudos conclusivos (e, em termos científicos, essa é uma palavra importantíssima) sobre os efeitos a longo prazo dessa substância.

Existem pesquisas em curso. E os resultados delas são, de fato, bem promissores para o curto prazo. Mas, o que se busca antes da liberação do uso (não só no Brasil, mas em outros países também) são as respostas quanto à eficácia e à segurança no longo prazo dessa substância para adultos e para crianças.

Outro ponto importante é que, quando a substância é purificada em laboratório e utilizada em pesquisas científicas, o canabidiol figura como único componente ou como componente em maior quantidade. Porém, quando a substância é comprada ou adquirida sem origem conhecida (de forma ilegal, sem a devida fiscalização), não é possível garantir a pureza do produto; com isso, não há quem possa garantir que esses pacientes não estejam sendo expostos a substâncias nocivas ao organismo.

Até o momento não há indicação por meio das sociedades médicas, guidelines ou órgãos reguladores para o uso dessa substância no tratamento das epilepsias de difícil controle.

Em dezembro de 2013, o FDA (Food and Drug Administration, órgão norte-americano equivalente à Anvisa no Brasil) permitiu a condução de estudos dessa substância em pacientes. Vejam bem, estudos. Isso significa a formação de grupos de acompanhamento, sob critérios científicos.

Pais e demais pessoas engajadas nessa causa, geralmente são muito bem informados sobre o que é a epilepsia e também sobre as drogas que atualmente costumam ser prescritas para esses pacientes. Certamente devem saber que para cada droga existe um protocolo que prevê as indicações e as dosagens, a lista dos possíveis efeitos colaterais, e que determina também os controles que devem ser feitos no paciente, tais como: acompanhamento das funções hepáticas, leucograma, hemograma, etc.

Como médicos, devemos nos posicionar solidariamente com os pais que buscam respostas da comunidade científica e ter celeridade naquilo em que é possível ser célere. Porém, é de nossa responsabilidade chamar atenção para as ponderações necessárias, estarmos disponíveis e dispostos a procurar as respostas, mas zelando pelo rigor científico, que, em última instância, visa justamente a segurança e o bem-estar humano.

Alguns dados importantes sobre epilepsia

– A epilepsia é um quadro que acomete cerca de 1% da população geral, com índices maiores na infância;

– Uma crise epiléptica vai ocorrer sempre que as células de alguma área do cérebro ou o cérebro todo tiverem uma atividade elétrica excessiva e descontrolada. O portador de epilepsia é o indivíduo que apresenta crises epilépticas parciais ou generalizadas e de repetição;

– As crises epilépticas acontecem porque alguma área do cérebro tem algum tipo de problema, que pode ser de diversos tipos, como uma área atrofiada, uma área que não recebeu oxigênio, um cisto, uma cicatriz, uma malformação cerebral, etc. Qualquer uma dessas causas pode alterar a eletricidade de alguma área do cérebro, ou do cérebro como um todo, causando a crise epiléptica;

– Cuidados pré-natais, cumprimento do calendário de vacinação, controle de doenças infecciosas e parasitárias são referidos como fatores importantes na prevenção da epilepsia. Porém, nem sempre é possível evitar a doença, que também pode surgir devido a causas genéticas. Uma vez instalada a patologia, o diagnóstico precoce e o tratamento farmacológico oportuno são importantes para a prevenção e o controle das crises;

– Epilepsias de difícil controle são aquelas que mesmo tratadas adequadamente não respondem ao tratamento e o paciente mantem muitas crises ao dia, ou escapes de crises frequentes. O tratamento geralmente é feito com medicações orais anti-convulsivantes,  benzodiazepínicos, em doses altas e geralmente politerapia (mais de dois medicamentos). Dieta cetogênica e cirurgias podem ser indicadas, a depender do quadro clínico;

– O tratamento das crises epilépticas tem como objetivo escolher um ou mais medicamentos que vão tentar “tirar o excesso” de atividade elétrica do paciente. Como as crises são imprevisíveis, e não se sabe quando elas vão ocorrer, o tratamento tem de ser contínuo, por um período de dois a quatro anos, em média;

– Nem todos os pacientes conseguem ter suas crises totalmente controladas, mesmo tomando os medicamentos. Estima-se que três em cada dez pacientes tenham grandes chances de continuarem tendo crises, apesar do uso correto da medicação;

– Existem medicamentos que funcionam melhor em alguns tipos de crises epilépticas e outros que funcionam melhor em outros tipos de crises epilépticas. Portanto, escolher o medicamento certo e a dose certa para cada paciente é algo que exige uma atenta observação diagnóstica e acompanhamento do paciente;

– A forma correta de usar a medicação é também fundamental para o controle das crises;

– Muitos pacientes apresentam efeitos adversos com os medicamentos usados para controlar crises epilépticas. O principal jeito de evitar os efeitos adversos é começar com uma dose baixa e ir aumentando. Ainda assim, muitos pacientes vão ter efeitos adversos com o uso prolongado de medicamentos;

– O canabidiol é uma das substâncias canabinoides presentes na cannabis sativa, sem princípio psicoativo. Acredita-se que seu efeito benéfico nas epilepsias de difícil controle seja devido à sua capacidade anti-inflamatória e sua ação neuromoduladora. No entanto, o seu mecanismo de ação não está de todo definido para que haja a sua liberação como medicamento para a população.

Compartilho aqui também o link de uma (curta) entrevista que dei sobre esse tema recentemente.

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